Os outros

Quando um idoso morre, é como se uma biblioteca se incendiasse. O aforismo, que encontrei por aí, é atribuído ao poeta malinês Amadou Hampaté-Ba, que fazia referência ao valor dos idosos na sociedade tradicional africana, como guardiães do conhecimento e responsáveis por passa-lo às gerações vindouras.
Não estou seguro da autoria da frase, mas ele é pleno de sentido. Imagine o quanto cada ser humano viveu, experimentou, aprendeu durante o tempo de uma vida. Quanto podemos aprender uns com os outros.
Em O Otimista Racional, Matt Ridley fala de como, apesar da hemorragia de más notícias que nos chegam hoje por todos os meios, o mundo está sempre melhorando na redução de conflitos, guerras, fomes, doenças, no acesso a informação e outros aspectos. E atribui essa notável evolução ao conceito de “ideas having sex”.
Da mesma forma que na biologia, o surgimento da reprodução sexuada permitiu um salto extraordinário na evolução das espécies, a troca de ideias entre pessoas, países, civilizações inteiras permitiu à humanidade evoluir em suas relações, desenvolver tecnologias e melhorar o nível de vida de grande parte da população (embora obviamente os desafios permaneçam gigantescos). Da esma forma, o desenvolvimento da linguagem, falada, depois escrita, e as novas tecnologias de informação elevam o potencial dessa troca de idéias à estratosfera…
A premissa de que aprender uns com os outros para evoluir parece ser evidente.
Mas não funciona se optamos por ignorar fatos, ou se optamos por ignorar a história que o outro tem a contar.
A escritora nigeriana Chimamanda Adichie nos fala (provavelmente uma das palestras mais vistas do TED Talks), sobre o perigo da história única.
Moro em Cuiabá. Quando falo isso as pessoas dizem “nossa, que calor”. Aparentemente é a única coisa que sabem sobre Cuiabá. E perdem a oportunidade de saber mais sobre uma cidade de 300 anos com uma cultura rica e genuína.
Todos conhecemos histórias únicas. Baianos são preguiçosos, gaúchos são machistas, franceses não tomam banho, argentinos são arrogantes, imigrantes só querem aproveitar serviços sociais grátis. Inúmeras vezes vi brasileiros indo a China com um estereótipo na cabeça e retornando absolutamente espantados com a China atual.
Todos esses povos e lugares tem múltiplas histórias a serem contadas, e reduzi-las a uma só, um estereótipo, as faz incompletas.
E mesmo no meio em que trabalho, a história única é onipresente. Funcionários públicos são incompetentes, Produtores rurais são destruidores da natureza e querem nos envenenar, ambientalistas são mercenários a serviço de interesses estrangeiros, indígenas são vagabundos, políticos são oportunistas.
Mas, como nos lembra Adichie, como se conta a história dos outros é uma ferramenta de poder.
Em muitos casos, a histórica única que temos sobre outros advém de nossa própria ignorância.
Se há algo em que acredito, independente da religião, é que estamos todos neste mundo para aprender algo.
E para que você de fato possa engajar-se com outras pessoas, e aprender com elas, pressupõe que você possa engajar-se com todas as suas histórias, não com a única que você conhece.
Diz ainda a escritora: “A consequência da história única é esta: ela rouba a dignidade das pessoas. Faz com que reconhecer nossa igual humanidade seja mais difícil. Enfatiza como somos diferentes, ao invés de como somos semelhantes”
Mas há casos em que a história única não vem de ignorância, vem de propósito. Há gente que quer impor uma narrativa sobre outros para que essa seja de fato a história única daqueles que não compartilham sua visão de mundo.
Quando algoritmos das redes sociais e mecanismos de busca selecionam suas preferências, aprofundam esse abismo por acabar reforçando o que você acha que sabe sobre o mundo, e não ao oferecer outras histórias sobre aquele assunto. E obviamente isso vem sendo usado como fonte de poder por quem quer manipular a opinião pública. E o objetivo é, na impossibilidade de eliminar o outro, eliminar suas ideias.
E conhecer os outros não significa tolerar o intolerável. Temos direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca da felicidade, como escreveu Jefferson, e nada que nos negue isso deve ser tolerado.
Eu já fui jovem, e arrogante. Mas tive a imensa sorte de conhecer muitas pessoas, e de passar por muitos lugares, de palácios de poder à mais humilde casa nos sertões. E com o tempo fui tentando a buscar mais aprender do que ensinar.
Acredito, como o otimista racional, que isso gera novas ideias para que possamos evoluir como humanidade. Como cristão, nos deixa mais fácil entender o único mandamento que de fato importa, amar o próximo.
E não é preciso ser cristão para entender isso. Quando perguntaram ao sábio hindu Ramana Maharsi como tratar os outros, ele respondeu: não existem outros.

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