Verified Sourcing Areas

O evento de 10 anos da IDH – Iniciativa para o Comércio Sustentável – na Holanda marcou também o lançamento global do conceito de VSA, Verified Sourcing Areas ou Áreas de Originação Verificadas.
O primeiro piloto de VSA foi lançado em Mato Grosso no início do ano, na região que engloba os municípios de Juruena e Cotriguaçu. Como diretor-executivo da PCI sou agora parte do VSA Global Steering Committee, o Comitê, secretariado pela IDH, que tem o objetivo de desenvolver o conceito, definir performance standards e acompanhar a implementação dos VSA’s.
Hoje, para uma empresa garantir que sua originação é sustentável, ela pode definir políticas internas de compra específicas para garantir determinado padrão. Ela pode também adotar certificações existentes no mercado que ofereçam essa garantia. Hoje, grande parte do mercado de papel e celulose é certificado FSC por exemplo. Ou então, empresas se fiam em mecanismos de sanção como é a moratória da soja. Se há desmatamento em algum fornecedor, ele é simplesmente excluído de uma cadeia normal de fornecimento.
Todos esses mecanismos têm problemas intrínsecos para causar impacto em escala em determinada paisagem.
Certificações são caras, e de difícil implementação. Normalmente certificam-se os produtores que já estão no topo da pirâmide em eficiência e gestão, e seu poder, portanto, é limitado para transformar uma grande massa de produtores.
Sanções como a moratória da soja ou os TACs dos frigoríficos na Amazônia são mecanismos excludentes. Para uma empresa pode ser bastante confortável poder afirmar que não há desmatamento em sua cadeia de fornecimento com base em uma moratória. Mas o fato é que os produtores excluídos continuarão na mesma paisagem, com a mesma necessidade de garantir renda e com o mesmo impacto na paisagem. Os TACs do MPF na indústria da carne geraram o maior esquema de triangulação de boi da história da pecuária nacional, nada além disso. Além de vazamentos, sanções geram conflitos desnecessários dentro das cadeias produtivas. Porque um produtor que segue uma legislação exigente como é brasileira, não teria o direito de vender honestamente o produto de seu trabalho?
Além disso há o custo. Tome-se como exemplo a pecuária, que conheço de perto. Para garantir a sustentabilidade da origem da carne, os frigoríficos estão monitorando seus fornecedores, fazenda a fazenda. Às vezes um produtor é monitorado por 3 ou 4 frigoríficos diferentes, cada um pagando o custo deste monitoramento. Este boi que entra como matéria prima em um frigorífico é abatido, gerando couro, carne de dianteiro, carne de traseiro e miúdos.
Uma indústria que processa hambúrguer compra a carne de dianteiro, e vai controlar o frigorífico para saber se ele está monitorando seu fornecedor corretamente. Um supermercado que leva a carne do traseiro faz a mesma coisa. Às vezes dois ou três ou mais supermercados e clientes irão monitorar o que o frigorífico está monitorando. Uma indústria de pet food irá fazer o mesmo com os miúdos. E uma indústria que usa o couro, seja para moda, seja para automóveis ou mobiliário irá fazer o mesmo. É irracional, e tem um custo elevado para todo mundo.
Agora a pressão chega aos frigoríficos para que controlem seus fornecedores indiretos, ou seja, quem forneceu o bezerro ou o boi magro para o fornecedor do frigorífico, o que pode catapultar os custos desse monitoramento para a estratosfera visto que a pecuária é possivelmente a única atividade rural presente em todos os mais de 5 mil municípios brasileiros.
E quando tratamos de desmatamento e Originação de commodities, há duas regiões, principalmente, em foco no mundo: Brasil (MT e Matopiba) pela soja e pecuária, e Indonésia pelo óleo de palma.
O conceito de Verified Sourcing Area implica em garantir não a sustentabilidade de um produto, monitorando ou certificando fazenda a fazenda onde ele é produzido, mas garantir a sustentabilidade de uma região inteira.
Como? Através de coalizões locais, uma visão comum para o desenvolvimento sustentável da região produtora é desenvolvida. Através de indicadores de performance, a região pode ser monitorada em seus avanços, e conectada ao mercado. Compradores compromissados fecham esse círculo virtuoso ao incentivar a região a melhorar ainda mais.

Há vantagens inegáveis nessa abordagem. A possibilidade de garantir a sustentabilidade em escala, a um custo compartilhado infinitamente menor, e a garantia de incentivos tangíveis para a transformação dessas paisagens.
Há muitas perguntas no ar também. Como comparar regiões diferentes? Quais serão os indicadores de performance? Quais as condições iniciais minimamente necessárias? Qual a ambição necessária para metas jurisdicionais? Perguntas que o Global Steering Committee terá que debater.
Por ter trabalhado muito tempo com proteína animal, o conceito do VSA assemelha-se para mim ao status sanitário de países em relação à saúde animal.
A OIE, Organização Mundial de Saúde Animal, recebe informações voluntariamente dos serviços veterinários dos países membros em relação à sua performance no controle de epizootias. São essas informações que dão o status de cada país. Cada melhoria de status implica imediatamente em ampliação de mercados.
Cada região que almejasse indicar sua performance e se qualificar como um VSA poderia igualmente fornecer essas informações, também almejando ampliação de mercados.
Ou podemos fazer essa analogia com os ratings que agências de investimentos dão a países por exemplo.
VSA podem ser uma promissora maneira de dar escala a um problema hoje compartilhado por inúmeras empresas em diferentes mercados, como dar escala à produção sustentável de commodities, de maneira inclusiva e de forma a manter a competitividade.
Mato Grosso será um laboratório para a implementação do conceito, que pode revolucionar o mercado. Mas a existência de metas, indicadores de performance, governança local de fato não são suficientes para garantir essa transição para modelos sustentáveis. A resposta do mercado tem que ser efetiva. E aí vem a pergunta, fazemos o VSA e compradores virão?
Mesmo com commited buyers, a transição ainda dependerá de investimentos externos em peso. E para isso, é preciso que não apenas o mercado, mas o setor financeiro se engaje.

https://www.idhsustainabletrade.com/verified-sourcing-areas/

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