Engajamento

O Consumer Goods Forum é uma organização global que reúne os CEO’s de mais de 400 empresas entre varejistas, processadores, serviços e outros em 70 países, cujas vendas totais representam 3,5 trilhões de euros, 10 milhões de empregos diretos e 90 milhões de empregos indiretos. Em 2010, o board do CGF aprovou uma resolução pretendendo até 2020 obter desmatamento líquido zero nas cadeias de fornecimento de soja, óleo de palma, carne bovina e papel e celulose.
Dessa resolução nasceu a Tropical Forest Alliance, plataforma pública privada destinada a facilitar a implementação destes compromissos
Em 2104, em Nova Iorque, a NY Declaration on Forests, apoiada pelas Nações Unidas, reuniu 37 governos nacionais, 20 subnacionais e 53 empresas multinacionais além de organizações indígenas e NGO, pretendendo reduzir o desmatamento global pela metade até 2020 e zerá-lo até 2030.
Hoje, existem cerca de 785 compromissos públicos envolvendo 447 empresas diferentes e que prometem desvincular cadeias de commodities de desmatamento.
Pôr em prática esses compromissos é tarefa um pouco complexa.
Uma empresa poderia simplesmente ignorar áreas de risco. Porque comprar soja de Mato Grosso se posso comprar em Illinois ou na Argentina?
Acontece que risco muitas vezes também está associado a oportunidades. Como diz meu amigo João Shimada, você pode ser mais um negociando em Illinois, ou o único lá onde a soja está crescendo agora. Em segundo lugar, com o aumento da demanda mundial dificilmente o mercado poderá se dar ao luxo de ignorar as regiões de risco. Se sua empresa não comprar ali, alguém vai…
Algumas empresas passaram a operar em regiões de risco de desmatamento baseadas em instrumentos como a Moratória da Soja, que exclui das cadeias de fornecimento os produtores pegos com desmatamento após determinada data. Ou certificações, que tem dificuldade em ganhar escala.
Para uma empresa pode ser bastante confortável poder demonstrar a clientes e acionistas que seu fornecimento está livre de desmatamento. Mas há dúvidas quanto ao real poder de transformação destas iniciativas.
No documento The Sprint to 2020, a TFA conclui, a menos de 1000 dias da meta de 2020, que compromissos corporativos tiveram um impacto sobretudo ao encorajar mais transparência e responsabilidade ao longo da cadeia, e em algumas áreas melhores práticas agrícolas. Mas não foram suficientes para conter o desmatamento na fronteira agrícola e em áreas de florestas não afetadas pelo escopo talvez limitado dessas intervenções.
Ao mesmo tempo, o relatório da TFA aponta mercados emergentes, leia-se China, e instituições financeiras, como stirring giants, na direção de implementarem maiores controles no que financiam e originam.
No texto Os desafios das cadeias sustentáveis, ou o futuro é aqui, analisei as conclusões de estudo apontando a necessidade de combinar ações públicas e privadas no controle do desmatamento relacionado a cadeias de fornecimento.
A TFA identifica a necessidade dessa colaboração acontecer em jurisdições chave para produção de commodities e proteção de florestas. Mato Grosso, desde 2016 passou a fazer parte da Aliança, e é uma das suas jurisdições prioritárias para atuação no mundo.
Hoje, algumas empresas consideram o apoio a estratégias jurisdicionais como chave para eliminar o risco socioambiental de suas cadeias de forma mais eficiente.
Durante o Global Climate Action Summit em setembro na California, Unilever e WalMart anunciaram que o apoio a iniciativas jurisdicionais, com o WalMart mencionando especificamente Mato Grosso como alvo.

https://news.walmart.com/2018/09/13/unilever-and-walmart-announce-forest-sustainability-initiatives-at-the-global-climate-action-summit

O anúncio repercutiu na Forbes, que destacou a PCI em sua matéria.

https://www.forbes.com/sites/edfenergyexchange/2018/10/25/walmart-and-unilevers-push-to-halt-deforestation-may-signal-change-for-business/amp/

Não é por acaso. O trabalho de engajamento do setor privado no apoio ao Mato Grosso e à sua Estratégia PCI tem sido conduzido desde o ano passado, com o apoio de instituições como o Environmental Defense Fund – EDF – nos EUA e a Iniciativa para o Comércio Sustentável – IDH – da Holanda.
Antes do anúncio do WalMart, o Carrefour anunciou em julho em Cuiabá, que apoiaria em co-financiamento com a IDH um projeto de 3 milhões de euros para trabalhar a inclusão produtiva e a adequação legal de pequenos produtores de bezerro no Vale do Juruena e na região de Paranatinga, atacando assim o calcanhar de aquiles do risco socioambiental na exportação de carne brasileira, o fornecimento indireto.

https://www.idhsustainabletrade.com/news/brazil-carrefour-group-its-foundation-and-idh-commit-more-than-eur-3-million-to-protect-forest-through-sustainable-beef-production/

O apoio de uma empresa ou corporação a uma jurisdição pode vir de diversas formas. Investimento direto é uma delas. Apoiar a governança, assistência técnica, sourcing, ou simplesmente voice support são outras.
Para criar um canal de comunicação claro com o mundo corporativo, a PCI lançou em setembro também durante o GCAS um Grupo de Ação Corporativa, ou Corporate Action Group.

http://business.edf.org/pci

Para muitas empresas ainda não é claro como as iniciativas de cadeia, como certificações, mesas redondas ou moratórias conversam ou se complementam com iniciativas jurisdicionais, e mesmo como essas empresas podem apoiar iniciativas jurisdicionais.
Em um debate em Oslo, durante o Tropical Forests Forum em junho passado, Juliana Lopes da Amaggi ao participar de uma mesa sobre commodities e desmatamento descreveu a forma como uma empresa pode encarar iniciativas jurisdicionais: “Empresas não irão abandonar neste momento seus controles de supply chain simplesmente por originar matéria prima em determinada jurisdição. Mas eu entendo, que se eu agir naquela jurisdição em temas críticos, estarei contribuindo para reduzir significativamente no futuro os problemas de supply chain que tenho hoje.”
Parceiros da PCI, EDF, ISA, ICV, IPAM e Imazon desenvolveram uma ferramenta, apresentada ao Corporate Action Group para que as empresas entendam o território em Mato Grosso, não só em relação ao risco, mas também que tipo de ações são necessárias considerando o nível de risco de cada município.

http://business.edf.org/files/2018/09/Regional-Risk-Map.pdf

O que a PCI pretende, com o avanço de suas metas, é a redução do risco como um todo dentro da jurisdição, de uma forma inclusiva, reduzindo também os custos de monitoramento que hoje é feito cadeia a cadeia, fornecedor a fornecedor.
Engajar o setor privado, sejam corporações seja o setor financeiro, em um jurisdictional approach, significa atraí-los para apoiar ações e projetos prioritários no território, considerando que é esse apoio que irá reduzir o risco pré competitivo para todos.
Em 5 de novembro passado tivemos a primeira reunião do PCI Corporate Action Group, com a participação de varejistas, traders, empresas de insumo e outras.
Apresentamos exemplos concretos de como uma empresa pode apoiar a PCI, e como podem conectar-se a projetos que estão fazendo a PCI acontecer, seja em soja, seja em pecuária, seja na agricultura familiar.
Com a urgência dos compromissos assumidos, como diria Elvis Presley, o que precisamos agora é a little less conversation, a little more action.

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