Lições indígenas

Quando o Mato Grosso tornou-se elegível para a implementação do Programa REDD for Early Movers – ou REM – programa da Cooperação Alemã para estimular mecanismos de REDD no mundo, estava claro que o componente indígena deveria fazer parte deste processo.
As salvaguardas de REDD preveem que populações indígenas e tradicionais sejam beneficiários preferenciais de políticas de REDD. Em Mato Grosso particularmente, Terras Indígenas são detentoras de grandes estoques florestais, e portanto de Carbono, que são a moeda corrente do REDD.
A partir daí tivemos o privilégio de observar de perto uma construção cujo legado ultrapassa em grande medida a simples implementação do REM.
A discussão sobre o investimento feito pela Alemanha (ao qual somou-se contribuição do Reino Unido) foi a chama inicial de uma organização sem precedentes dos diferentes povos indígenas no Estado.
É difícil para um não indígena compreender a encruzilhada social, cultural, econômica e política em que se encontram povos indígenas no Brasil de hoje.
A história relativamente recente da ocupação territorial em Mato Grosso faz com que os conflitos, traumas e ressentimentos provocados por este processo ainda seja uma memória bastante viva nos povos que ainda existem e resistem.
A Constituição de 88 é um marco no reconhecimento dos direitos indígenas. Terras foram demarcadas, acabou a figura da tutela estatal. Jovens que saíram das aldeias para a cidade, estudaram e se formaram, agora voltam como lideranças para uma transição complexa entre passado e futuro.
Essa transição passa pelo choque de preservar tradições ou aderir ao proselitismo fácil de evangelizadores, pelas escolhas entre facilidades da modernidade como energia elétrica motores de popa, celulares, computadores e geladeiras e pelos vícios dessa mesma modernidade como refrigerantes e álcool, e pelo dilema da vida ancestral e a busca por geração de renda.
É um longo caminho pela frente e as dores dessa transição não devem ser jamais subestimadas. Principalmente quando os conflitos em relação à demarcações, infraestrutura, uso da terra, exploração mineral, geração de renda e outros ainda estão longe de serem resolvidos.
Bem antes do REM, as lideranças indígenas de Mato Grosso começaram a se organizar sob uma Federação. Existem 43 etnias diferentes no Estado, algumas mais distintas entre si, entre língua e cultura, do que eu e um alemão.
Quando se abriu a possibilidade de um investimento externo para beneficiar essas populações, como pagamento pelo serviço de manterem a floresta em pé, iniciou-se um longo processo de consultas, com a formação de multiplicadores de informação e a realização de oficinas regionais. Primeiro para compartilhar a informação e assegurarem-se de que todos sabiam do que se tratava. A partir da disseminação da informação, uma segunda fase de consultas iniciou-se com dois objetivos principais. O primeiro, saber se de fato os indígenas aceitavam aquele pagamento. Organizações mais radicais criticam instrumentos de REDD como formas de comercialização ou uma exploração capitalista da natureza. O segundo objetivo seria determinar prioridades para o uso do investimento.
(Nas minhas divagações sobre política sempre imaginei que o Brasil (ou qualquer país) sair-se-ia melhor se dividido e administrado como cantões suíços, onde a população local decide os rumos de sua vida ao invés de ter um pacto federativo disfuncional como o nosso).
Não pude acompanhar todo o processo de construção do componente indígena do REM como gostaria. Mas o que vi, ainda que à distância, foi democracia, no melhor senso do termo, acontecendo ao vivo e a cores.
Toda voz foi ouvida, toda sugestão anotada, toda discordância discutida. E (ao contrário dos gregos antigos, inventores da democracia) com mulheres como protagonistas de peso em reuniões. Ainda tiveram elas a iniciativa de organizar uma oficina só de mulheres.
(Também nas minhas divagações políticas acredito que o mundo seria melhor se gerido por mulheres, a exemplo da minha própria casa… Um consultor amigo que trabalha com lideranças femininas no agronegócio as classifica como multitarefas por natureza, e sem medo de aprender, o que traz uma vantagem natural para qualquer tipo de trabalho, ainda mais em cargos de comando).
É claro que existem nas consultas disputas de poder, ciúmes, discordâncias. São inerentes à natureza humana indígena ou não.
Mas diante de um processo eleitoral tumultuado como o brasileiro, no fundo de um abismo moral, político, social e econômico, é uma lição testemunhar como povos diferentes podem erguer a cabeça com orgulho, darem-se as mãos e olharem o futuro, dialogando e estabelecendo prioridades que levem ao bem comum.
Esse legado vai muito além do REM.

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