A Revolta de Atlas

É inegável o momento de polarização, acentuado pela proximidade com as eleições, que vivemos no país.
Os algoritmos que nos ditam a vida hoje ao que parece ajudam a piorar a situação. De fato, alguém que busca conteúdos com certa tendência política será cada vez mais induzido a conteúdos que confirmem essas tendências, e será cada vez menos exposto ao contraditório.
Viramos, como diz o economista Eduardo Moreira, debatedores de manchetes de Facebook, enquanto reais problemas passam desapercebidos…
A polarização é terreno fértil para o populismo, à esquerda ou a direita. Nesse cenário, alguém que se apresente como o verdadeiro representante do povo e dos valores da sociedade e o único capaz de enfrentar os inimigos internos ou externos, reais ou imaginários, ganha pontos.
Pois a polarização chegou ao campo e os produtores rurais buscam alguém capaz de enfrentar seus inimigos.
Os inimigos no caso são qualquer um que queira inibir, restringir ou impedir a atividade que garante seu sustento.
A revolta é justificada não só porque sabem, com fatos e dados que o agronegócio é um dos pilares de sustentação da economia brasileira, mas também porque sabem, no caso da preservação ambiental que são eles os detentores de grande parte dos ativos florestais do país.
Apesar disso, sofrem com uma malha regulatória complexa, sempre em mudanças, com interpretações subjetivas que geram uma absurda insegurança jurídica, sofrem com uma infraestrutura extremamente precária, sofrem com a falta de segurança, cargas roubadas, gado roubado, insumos roubados, e conflitos fundiários herdados de uma ocupação desordenada do território brasileiro. Discussões sobre temas como a lei de defensivos agrícolas ajudaram a piorar a situação.
No campo privado, os produtores acham um absurdo as exigências de “desmatamento zero” feitas por agentes de mercado. Como é possível impedir que um produtor que segue a exigente legislação ambiental brasileira possa comercializar honestamente o produto do seu trabalho?
Infelizmente, as definições de um produto sustentável, especialmente no mundo das commodities, foi restrita a apenas um critério, o desmatamento. E desmatamento zero é entendido por produtores como uma usurpação de direitos garantidos por lei, e praticamente um confisco de propriedade.
Quando a discussão sobre cadeias de fornecimento sustentável chegou da Amazônia ao Cerrado, a simples perspectiva de uma moratória acirrou os ânimos ainda mais.
Um representante de classe chegou a me afirmar “chega de grupos de trabalho, comitês, fóruns de diálogo. Ali nunca somos ouvidos. Somos os culpados de tudo. Temos que abandonar isso tudo e lutar onde sabemos o que fazer, na política.”
Sim. Há uma revolta no ar.
Mas sobre isso há um comentário essencial de Daniel Nepstad, do Earth Innovation Institute publicado no Mongabay, intitulado “Ganhando o apoio de produtores para reduzir o desmatamento”:

https://news.mongabay.com/2018/06/winning-farmer-support-to-reduce-deforestation-commentary/

Nepstad faz uma distinção muito importante, e que em geral não é feita nem pela mídia e nem de forma geral pelos atores envolvidos no debate no Brasil. A distinção entre os produtores rurais que são empresários do campo (rural entrepreneurs) dos grileiros, desmatadores ilegais e especuladores que em geral são enquadrados todos (junto com produtores) em uma única categoria pejorativamente denominada “ruralistas”.
Coincidentemente ou não, a primeira vez que vi esta distinção explicitada em um veículo de mídia aconteceu em uma matéria importantíssima de Eliane Brum para El País: “Massacre anunciado na Anapu de Dorothy Stang”:

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/30/opinion/1532957463_995238.html

A certo ponto afirma a autora:

“É necessário ter cuidado ao tratar o “agronegócio” – e mais ainda a “agricultura” – como um setor predatório em si. É importante diferenciar quem são os “fazendeiros” e quem são os “grileiros”. Embora em parâmetros históricos toda propriedade privada da terra seja uma expropriação, há uma diferença entre aqueles que estão produzindo dentro de alguma legalidade e aqueles que invadem terras de comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas, assim como terras destinadas a projetos agrários. Estes últimos se apropriam de terras públicas pela força da pistolagem, muitas vezes com o apoio da polícia e de setores corrompidos do judiciário e dos cartórios.
Mas toda vez que um grileiro é chamado de “fazendeiro”, e a grilagem é chamada de “agronegócio”, a origem criminosa é apagada e seus protagonistas são promovidos a uma atividade bem vista e valorizada em nações jovens como o Brasil, assim como nos demais países da América Latina. O fazendeiro e o agricultor costumam ser decodificados pelo senso comum como pioneiros e desbravadores, em especial quando alcançam o norte. Isso faz deles um elemento da construção da identidade do país. Quando generalizados como bandidos pelas organizações, a luta pelo meio ambiente não só perde apoio no conjunto da população mas também possíveis aliados, criando uma tensão desnecessária.”

Daniel Nepstad cita como 3 pontos fundamentais para atrair os produtores para a agenda ambiental:

1. Reconhecer e recompensar os produtores responsáveis
2. Abrir espaço e ouvir os produtores nas mesas de negociação
3. Criar uma agenda comum de desburocratização e de melhoria de infraestrutura por exemplo

Possivelmente a Revolta de Atlas (by Ayn Rand)irá se manifestar nas urnas na próxima eleição. Ainda assim é preciso abandonar os extremos, e como Buda avançar pelo caminho do meio em prol de uma discussão racional e equilibrada, que atenda as demandas dos produtores e reconheça seu valor para a conservação dos ativos ambientais brasileiros.
O que menos precisamos hoje, é de mais polarização.
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