GTPS no divã

Comecei a participar do GTPS em 2009, quando ainda era Coordenador de Sustentabilidade da ABIEC.
Em junho daquele ano, o relatório da Farra do Boi na Amazônia divulgado pelo Greenpeace havia dado um chute na canela do setor, ao implicar as grandes indústrias frigoríficas e redes de varejo internacional no desmatamento da Amazônia.
A partir dali, foram sendo delineadas 4 grandes estratégias de contenção de danos.
A primeira, liderada pelo próprio Greenpeace, foi a que resultou na assinatura por Bertin, JBS, Marfrig e Minerva de um compromisso público onde as empresas se obrigavam a, entre outras exigências, não comprar mais gado em áreas desmatadas depois de agosto daquele ano. Era a moratória do boi.
A segunda, liderada pelo MPF que havia iniciado uma Ação Civil Pública contra os frigoríficos, resultou em Termos de Ajuste de Conduta, primeiro no Pará e depois levados a outros estados pela força tarefa de procuradores da Amazônia. No coração dos TAC’s, entre as exigências de praxe como não comprar gado de áreas protegidas ou de fornecedores nas listas do Ibama e do MTE, estava transferência para o frigorífico da responsabilidade de exigir o Cadastro Ambiental Rural dos produtores rurais (em 2009 o Código Florestal não estava definido, e somente o MT e o PA tinham a figura do CAR em seus processos de licenciamento).
A terceira, que naufragou soberbamente foi a tentativa da Associação dos supermercados de empurrar goela abaixo no setor um processo de certificação e auditoria em frigoríficos e propriedades rurais. Foi enfaticamente recusado tanto pela indústria como por produtores.
A quarta, era o GTPS. (Caberá outro artigo explicando em detalhes os resultados de cada estratégia…).
Desde 2008, organizações como o IFC, WWF e outras discutiam a formação de uma mesa redonda de pecuária no Brasil, nos moldes de outras mesas redondas de commodities no mundo.
O método aplicado tinha sido igual em toda parte. Juntam-se os stakeholders interessados em um Grupo. No caso do GTPS, juntamos produtores, frigoríficos, varejo e serviços, ONGs e instituições financeiras.
Os stakeholders definem princípios e critérios do que é um produto sustentável.
Definido este padrão, que está ali compromete-se em segui-lo, o padrão vira uma certificação e cria-se um mercado.
Acontece que em todas as mesas redondas, da soja ao óleo de palma, a definição de produto sustentável foi reduzida a produto sem desmatamento.
E acontece que produtores brasileiros que já tem um Código Florestal a cumprir não aceitam que a lei não seja suficiente para garantir essa sustentabilidade desejada pelo mercado.
Quando foi formada a RTRS, Rountable for Responsible Soy, criou-se um padrão de certificação para a soja desmatamento zero. A Aprosoja, representantes dos produtores de Mato Grosso pulou fora da mesa-redonda da soja…
Quando a discussão dos princípios e critérios chegou no GTPS, o mesmo conflito com produtores se repetiu. O GTPS foi então criado com o compromisso de apoiar o desmatamento zero desde que fossem criados mecanismos de compensação para produtores que deixassem de desmatar o que legalmente poderiam.
Mas a discussão de princípios e critérios ainda paralisou o GTPS por um ano. Acreditava-se firmemente que o GT deveria gerar um processo de certificação, Eu mesmo cheguei a escrever ao representante do IFC que liderava as discussões na época dizendo que retiraria a Abiec do grupo caso isso se concretizasse.
Em um cenário de legislação indefinida (o CF só sairia em 2012), com a maioria dos produtores não conseguindo nem cumprir a lei, criar critérios adicionais me parecia descabido, ainda mais quando as indústrias já tinha moratória e TACs nas costas.
Em 2010 foi realizado em Denver, nos EUA, a primeira Conferencia Internacional sobre Pecuária Sustentável. A Conferência seria a semente da futura GRSB, Global Roundtable for Sustainable Beef.
Dali saímos com duas novas estratégias. A primeira foi a de convencer a Global Roundtable que não poderiam impor de cima para baixo critérios de sustentabilidade, até porque os desafios no Brasil, EUA, Australia e outras regiões produtoras eram completamente diferentes. A GRSB envidou seus esforços então em criar outras mesas regionais inspiradas no Brasil.
A segunda estratégia foi a de revolucionar o GTPS, incorporando os resultados de um processo paralelo iniciado pela Associação de Profissionais de Pecuária Sustentável, a APPS que discutia soluções técnicas para aumento de eficiência na pecuária, como financiá-las e como disseminá-las.
Essa revolução foi a de definir a pecuária sustentável não como pecuária desmatamento zero, mas a pecuária em melhoria contínua.
Aí, quem saiu do GTPS foi o IFC…
Esta foi a primeira grande conquista do GTPS, não de todo reconhecida pelos produtores.
Em vez de desenvolvermos um padrão a ser seguido, lançamos indicadores dessa melhoria contínua e um guia de boas práticas destinado a fomentar essa melhoria.
A aplicação em larga escala destes indicadores poderia não só demonstrar de fato a evolução da pecuária como indicar também ações de orientação no campo.
Se eu fosse produtor ou uma associação de produtores adoraria poder mostrar ao mundo que estou melhorando a cada ano. E usar isso a meu favor no mercado. Como aliás o GTPS canadense está fazendo com seus indicadores.
Fui sucessivamente de membro dos grupos de trabalho do GTPS ao seu Conselho Diretor, sua Comissão Executiva e finalmente fui seu presidente em 2016.
Além de entregarmos os indicadores de sustentabilidade, o manual de boas práticas, inúmeros documentos e posicionamentos que contribuíram para o setor, durante este período o GTPS participou ativamente de inúmeros fóruns internacionais como o GRSB, FAO, IMS, COP, o Parlamento Europeu e outros, explicando os desafios, complexidades e oportunidades do Brasil e da pecuária.
Participamos não para defender as cores da pecuária nacional (papel dos produtores e da indústria), mas para defender o importante papel que a pecuária e sua melhoria contínua tem para o desenvolvimento sustentável, incluindo aí sua importância ambiental, econômica e sua importância para a segurança alimentar de milhões de pessoas no Brasil e no mundo.
Apesar de todos os serviços prestados, o GTPS hoje vive uma crise existencial.
Stakeholders tem dúvidas quanto ao valor agregado pelo GTPS enquanto varejo e Indústria continuam a assegurar aos consumidores e compradores a sustentabilidade da carne através da moratória do boi, e não de melhoria contínua.
Pessoalmente não tenho dúvidas sobre o que seria mais efetivo na transformação da paisagem.
Os produtores, que esperavam de fato soluções mais concretas que pudessem auxiliar na melhoria contínua nunca viram nenhum esquema de compensação surgir na última década, nem linhas de financiamento mais adequadas, nem quem lhes ajudasse a pagar a conta do código florestal. A única percepção que têm é que continuam tentando lhes impingir exigências supralegais.
A Acrimat, Associação dos Criadores de Mato Grosso pediu o desligamento do grupo após provocar um debate sobre reformular o compromisso do GT em relação ao desmatamento zero. Também não aceitam que os indicadores mostrem que alguém com desmatamento zero seja melhor do que alguém que está simplesmente dentro da legalidade.
O que está na mesa hoje é na verdade o que o GTPS quer ser e fazer daqui para a frente.
Em um processo de planejamento feito em 2014 em Nova Odessa, foram definidos 8 temas chave para a estratégia do GTPS:
1.Assistência Técnica
2.Adequação Legal
3.Articulação de Cadeia
4.Políticas Públicas
5.Rastreabilidade
6.Mercado
7.Informações
8.Comunicação
Baseado no histórico do GTPS e com o olhar para o futuro, eu proporia ao Grupo três grandes áreas de atuação:
Advocacy: influenciando políticas públicas em prol do desenvolvimento sustentável da pecuária e participando de fóruns relevantes de discussão em defesa do papel da pecuária;
Comunicação: através de posicionamentos elaborados em consenso e divulgação de informações sobre pecuária sustentável;
Articulação da cadeia: promovendo a transparência, gerando sinergias no mercado, fazendo troca de experiências e construção de conhecimento coletivo através de seminários;
Aparentemente, as discussões recentes no Grupo reforçam essa visão.
Quanto a promover adequação legal e assistência técnica, pensava-se de início que o GTPS poderia ser um hub de projetos de pecuária sustentável, ajudando a captar investimentos e co-financiando e executando projetos de campo. Embora a experiência passada tenha sido positiva, está claro que o GT em si, como entidade, deve se abster dessa tarefa.
Implementar projetos, colocar em prática os indicadores e as boas práticas deveriam ser atividades exclusivas de seus membros. Ainda que o GTPS tenha construído essas ferramentas, está claro que o Grupo não tem estrutura nem pernas para coloca-las em prática, e nem parece ter financiadores interessados em bancar esta estrutura, o que a meu ver esgota a discussão. As ferramentas estão dadas, cabe aos Associados o esforço ou o interesse de colocá-las em prática, ou de melhorá-las e torná-las acessíveis e úteis a mais gente.
Para mim, o grande valor agregado do GTPS está na construção de uma visão comum, entre diferentes atores, sobre o que é a pecuária sustentável, e o que deve ser feito para que a melhoria contínua avance no campo.
É esse legado que deve ser preservado.
fs

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