Um futuro para a carne do Mato Grosso

Eu escrevi este texto a um tempo atrás para um amigo e uma amiga que queriam dedicar tempo a promover uma nova articulação na cadeia da carne. Enderecei a ele em um email intitulado “a triste história das tentativas e erros da cadeia produtiva da pecuária brasileira”.
Tentei colocar no papel todas as vezes em que vi a cadeia produtiva sentar na mesa para solucionar algum problema.
Fui testemunha privilegiada de todas essas ocasiões, e na imensa maioria das vezes eu estava junto, sugerindo soluções que seriam logo esquecidas pelas nossas famosas “lideranças”.
Há muita gente boa e disposta a cooperar na pecuária e na indústria, mas com o tempo todas essas oportunidades perdidas me fizeram duvidar da capacidade de se construir um diálogo produtivo. E mesmo a gente boa sendo maioria, uma liderança ruim consegue sozinha atrasar em uma década a evolução deste setor.
Também vi ao longo do tempo que nossos empresários são doutrinados a pensar no curto prazo. Não é uma exclusividade desta cadeia, vi isso muitas vezes na CNI, na FIESP e em outros lugares.
E como temos memória curta, é preciso que as pessoas não esqueçam de tudo o que aconteceu, e dos motivos pelos quais iniciativas boas não foram para a frente.
O Mato Grosso reavivou agora o IMAC, Instituto Mato Grossense da Carne, inspirado no Inac uruguaio e que coloca na mesma mesa produtores e frigoríficos com o governo observando.
Conta com duas lideranças jovens e capazes, Gulherme Nolasco, ex presidente do Indea e excelente técnico e Caio Penido na diretoria de sustentabilidade e comunicação.
É um alento para o setor e uma esperança de uma nova forma da cadeia pecuária se relacionar, além de uma latente demanda do mercado.

Durante a última década, por diversas vezes a cadeia produtiva da carne enfrentou crises que afetavam todos os seus elos, e diversas vezes teve a oportunidade de se organizar. Desperdiçaram-se todas elas.
Em todas as crises houve uma incapacidade generalizada de se racionalizar a discussão, de dar sequência a encaminhamentos de interesse geral, de se pensar em estratégias de longo prazo, de se evitar problemas futuros.
Na grande maioria das vezes, a cadeia dedica-se a apagar incêndios, e reúne-se quando é conveniente. Muitas crises poderiam ter sido evitadas e amenizadas se houvesse um diálogo institucionalizado e uma estratégia clara e de longo prazo, especialmente em relação a sanidade, rastreabilidade, qualidade e sustentabilidade, o que no final das contas representa maior acesso a mercados.
Os sucessivos fracassos das tentativas de diálogo e de organização deste sistema agroindustrial complexo decorrem principalmente de uma “balcanização” da cadeia em feudos de poder, com pautas imediatistas com associações e representações isoladas (insumos, indústria frigorífica, produtores) defendendo interesses próprios de curto prazo.
Não há uma estrutura ou Fórum onde a cadeia discuta e planeje seus objetivos de longo prazo. Os Fóruns que existem abordam temas parcialmente como o GTPS na sustentabilidade e o CNPC na sanidade, ou são politizados e disfuncionais.
Estratégias de longo prazo precisam de lideranças que pensem a longo prazo, capacidade intelectual, transparência, governança, o que só se consegue institucionalizando-se um fórum capaz de reunir os elos dessa cadeia e de conduzir os debates com governança clara e com recursos humanos capacitados e recursos materiais suficientes para a empreitada.
Algumas das crises atravessadas pelo setor nos últimos anos:
2002 – Criação do SISBOV
2006 – crise provocada por foco de aftosa no MS
2008 – Bloqueio parcial das exportações brasileiras para a União Europeia após a Decisão 61.
2009 – 2012 Crise financeira mundial com sequencia de indústrias em recuperação judicial, concentração do setor.
2009 – relatórios Greenpeace, TAC’s com MPF, moratória da Carne.
2010 – Suspensão dos Estados Unidos à carne industrializada por resíduos de avermectinas.
2011 – Embargo russo às exportações brasileiras.
2011 – Documentário Carne e Osso, Repórter Brasil.
2011- 2012 – Código Florestal.
2012 – Achado de BSE no Paraná.
2012 – liberação e suspensão dos betagonistas.
2013 – reportagens sobre abate clandestino, Fantástico, Veja, Repórter Record.
2014 – BSE Mato Grosso.
2015 – discussão sobre retirada de vacinação no Paraná.
2015 – Acordos Greenpeace e supermercados.
2017 – crise Funrural.
2017 – Carne Fraca, Carne Fria, delação JBS.

A pressão sobre a sustentabilidade na cadeia, e associações da carne ao desmatamento eram absolutamente previsíveis. Nenhuma ação preventiva foi tomada, e o setor pego de surpresa por TACs e moratórias em seu pior momento econômico.
A discussão sobre resíduos de ivermectinas na carne e a queda de braço entre frigoríficos e o setor de saúde animal degenerou em restrições ao uso de medicamento de longa ação que afetaram todos os produtores, quando a solução poderia ter sido muito mais racional.
A liberação de betagonistas foi feita de forma completamente inconsequente gerando prejuízos em toda a cadeia e uma crise diplomática.
As crises sanitárias, desde a BSE, o debate público sobre abate clandestino e a Operação Carne Fraca tiveram sérios problemas de comunicação e integração entre o setor, o MAPA, PF, Ministério da Saúde e Itamaraty.
A discussão de rastreabilidade poderia estar resolvida há muito tempo, fossem usados modelos de sucesso vistos em outros países do mundo.
Abaixo algumas das tentativas de organização da cadeia, que foram tentadas mas que falharam em seus propósitos, abandonadas ou parcialmente sucedidas:

Conselho Nacional da Pecuária de Corte – CNPC
O CNPC foi criado em 1982 por iniciativa de João Carlos de Souza Meirelles, para unir a cadeia da pecuária de corte, nos moldes do Conselho Nacional do Café. Passou a ser sustentado basicamente pelo SINDAN, Sindicato da indústria de insumos veterinários que o direcionou à pauta que lhe interessava, a expansão da vacinação destinada a erradicar a aftosa no Brasil. Não resolveu outros assuntos de interesse da cadeia. João Carlos Meirelles a presidiu alternando o poder com seu círculo de amigos e família, sendo que o CNPC hoje é comandado por Tirso Meirelles, seu filho.

SIC
Em 2001, um grupo de lideranças do setor produtivo lançou o SIC, Serviço de Informação da Carne, baseado no modelo francês do CIV, Centre de Informations des Viandes. O SIC era destinado a melhorar o conhecimento público sobre a carne bovina, com informações técnicas e um trabalho de comunicação eficiente. Em 2005 lançou a campanha Carne, você gosta, você pode, você precisa. Depois de uma atuação bem-sucedida, foi sendo gradualmente abandonado pelas entidades até ser alocado dentro da ABIEC. Sem apoio também por parte dos frigoríficos, reduziu suas atividades e finalmente foi repassado à ABC, Associação Brasileira de Criadores que tinha a intenção, não sucedida, de reativá-lo.

Instituto Pró Carne
O Pró Carne nasceu em 2005 por iniciativa de Antenor Nogueira, liderança goiana do setor produtivo como uma dissidência da iniciativa do SIC. Conseguiu angariar alguns recursos aplicados em uma campanha de marketing, e tão logo a campanha acabou também acabou a atividade do Instituto.

Monitoramento socioambiental
Em junho 2009, com o relatório da Farra do Boi da Amazônia do Greenpeace, que incluía grandes exportadores brasileiros e grandes redes varejistas internacionais de carne e couro como cúmplices do desmatamento ilegal, a cadeia estava sob pressão.
A partir daí algumas frentes de trabalho se abriram. O Greenpeace forçou a assinatura de uma moratória da carne a partir de setembro de 2009, com JBS, Marfrig, Minerva e Bertin. A moratória foi assinada sem nenhum diálogo com a cadeia.
A ABRAS, de supermercados, preparou de junho a outubro uma proposta elaborada pela SGS para certificação da cadeia, uma proposta tão inexequível e absurda que ao ser a presentada a frigoríficos e setor produtivo foi rechaçada vigorosa e imediatamente.
O MPF no Pará de posse do relatório do Greenpeace, iniciou uma ação civil pública contra as empresas, suspensa com a assinatura de Termos de Ajuste de Conduta, que na prática delegavao ao setor a responsabilidade de vigiar e punir comercialmente os produtores que não tivessem o Cadastro Ambiental Rural entre outros critérios. O MPF levou a estratégia a outros estados da Amazonia forçando TACs na maior parte da indústria atuando na Amazonia e criando um imenso conflito além de vazamentos sem que o desmatamento fosse por isso controlado.
Ao mesmo tempo no GTPS queria-se discutir princípios e critérios que definissem uma carne sustentável, como o objetivo de se transforma-los em um processo de certificação.
Embora em todas essas ocasiões a cadeia produtiva estivesse reunida, nunca houve uma estratégia ou proposta de resposta organizada. A moratória, os TACs, a discussão de princípios e critérios levaram a um imenso desgaste de imagem, custos desnecessário e imensos conflitos em toda a cadeia, que perduram até hoje, com inúmeros pecuaristas sendo excluídos de vias normais de comercialização sem que se apresente uma porta de saída para os mesmos.

Pecuária do Brasil
Em 2011 a Abiec lançou a campanha Pecuária do Brasil. Inicialmente uma solicitação do BNDES às indústrias por ele financiadas para melhorar a imagem do setor, principalmente após a crise causada pelos relatórios do Greenpeace envolvendo frigoríficos e o desmatamento. Com o lema “O Brasil Evolui com a Pecuária, A Pecuária evolui com o Brasil” e idealizada pela agencia Prole, a campanha incluía além de publicidade, um vídeo com cases de sucesso real na pecuária, uma plataforma digital, um levantamento de dados do setor, e um comitê gestor de governança incluindo indústria e produtores. Sem apoio financeiro nem de frigoríficos e nem de entidades ou empresas, alguns produtos foram entregues com recursos do projeto Apex e a campanha como o comitê de governança morreram.

2011-2012 Grupo de Trabalho de Resíduos
Com a crise gerada pela suspensão americana à carne industrializada do Brasil por resíduos de avermectinas, um Grupo de Trabalho foi criado unindo o Sindan, Abiec e representantes de produtores. Os desafios envolviam soluções técnicas complexas para o problema, negociações com o governo brasileiro e americano, combate à pirataria de produtos veterinários e comunicação. O Sindan ensaiou uma campanha contra a pirataria. A dificuldade em achar soluções precipitou a indústria a radicalizar a discussão forçando a proibição de formulações de longa ação e criando uma queda de braço entre Sindan e Abiec que duraria até que os EUA revissem os limites de detecção.
As mesmas pessoas voltariam a debater a liberação dos beta-agonistas no Brasil, piorando a disputa entre indústria e o setor de saúde animal, que forçou o registro de medicamentos sem que houvesse um protocolo de segregação acordado entre as partes que garantisse mercados exportadores com restrições ao uso do produto. Com a ameaça de fechamento do mercado pela União Europeia, o registro foi suspenso por pressão da Abiec. Animais que haviam recebido o produto tiveram seus abates cancelados nos frigoríficos exportadores, e redirecionado para abate em estabelecimentos de mercado interno. Tanto o fabricante do produto como a de ração animal que o havia misturado em suas formulações fizeram recalls com prejuízos milionários, enquanto o MAPA e o Itmaraty se explicavam a europeus e outros mercados.
Propostas de segregação foram feitas pela CNA, Abiec e pelo setor de saúde animal. Nenhuma foi acordada entre as partes, e a tecnologia continua suspensa desde então.

FENAPEC, Agenda positiva, Consecarne, Consebov
A ideia de uma Frente Nacional de Pecuária de Corte surgiu na Expozebu de 2012. Chico Maia, da Acrissul reuniu diferentes associações de produtores e entidades como a UDR para enfrentar uma crise sem precedentes no setor, com inúmeras empresas enfrentando processos de recuperação judicial, fusões, aquisições e falências. Chico Maia foi eleito seu primeiro presidente e começou a promover encontros regionais.
O primeiro encontro, em Campo Grande, recebeu o nome de Movimento Nacional Contra o Monopólio dos Frigoríficos, realizado no dia 14 de maio de 2012. Mais de 1.500 produtores rurais, entidades representativas do setor produtivo, políticos e autoridades de todo Brasil, participaram, em sua maioria cobrando mudanças na atuação do BNDES que então patrocinava a concentração do setor. O encontro gerou uma Carta com seus desdobramentos, reuniões com o CADE e com algumas indústrias.
A FENAPEC reuniu-se então com o Grupo JBS e sua recém criada Diretoria de Relações com o Pecuarista. Wesley Batista propôs a construção de uma agenda positiva, que incluía entre outros, a criação de uma agência reguladora para o setor, um fundo de marketing e promoção da carne, inclusão de balanças dos produtores nos frigoríficos, desoneração da cadeia, tipificação de carcaças e combate ao abate clandestino, usando inclusive modelos conhecidos do grupo em outros países como o Beef Check off, as balanças do INAC uruguaio e a tipificação americana.
No segundo encontro em Cuiabá, em 8 de julho, a FENAPEC e mais de 300 produtores convidaram a JBS para lançar essa Agenda Positiva.
A FENAPEC reuniu-se ainda em julho com ABIEC e ABRAFRIGO em São Paulo obtendo o apoio das duas entidades representantes dos frigoríficos para a criação do CONSECARNE, inspirado nos modelos do CONSECANA e CONSECITRUS.
Ao mesmo tempo, Antenor Nogueira então presidente do Fórum Permanente de Pecuária da CNA, começou reuniões com Federações e entidades propondo a criação do CONSEBOV, com a mesma finalidade.
Em agosto, FENAPEC e CNA entraram em um acordo e uniram forças. A FENAPEC foi desmobilizada. Reuniões sobre a agenda positiva foram feitas com a indústria até dezembro mas ao final engavetadas.
A JBS lançou seu sistema próprio de tipificação, o Farol da Qualidade.
Posteriormente, o Fórum Nacional de Pecuária de Corte seria transformado em Comissão Nacional de Pecuária de Corte, que ainda discute um sistema nacional de tipificação de carcaças.

Grupo de Trabalho Abate clandestino
Em 2013 e 2014, um grupo de trabalho reuniu grandes varejistas, frigoríficos, a CNA e o Instituto Ethos para quantificar o abate não fiscalizado no Brasil. O grupo financiou uma pesquisa do CEPEA sobre o tema. Os resultados do Estudo embasariam ações concretas a serem tomadas no combate ao abate clandestino.
Houveram divergências sobre a divulgação dos dados, e a coletiva de imprensa prevista para divulgação do estudo foi substituída por um release do CEPEA. O grupo parou de se reunir e nenhuma ação concreta tomada.

CTC Sisbov e GT de Rastreabilidade
O Comitê Técnico Consultivo do SISBOV foi formado em 2008 a pedido da cadeia por determinação do Ministério da Agricultura. Sua função era propor melhorias ao SISBOV para que o país pudesse através de um sistema de rastreabilidade confiável recuperar o mercado europeu, depois de uma queda abissal nas exportações causada pelas falhas do sistema.
O CTC reuniu representantes de toda a cadeia para a discussão de modificações na IN17. Verificou-se a necessidade de modificações profundas no sistema. A CNA capitaneou um investimento de R$ 12 milhões na construção da PGA, a Plataforma de Gestão Agropecuária destinada a unificar as bases de dados estaduais de GTA em uma base de dados única. A PGA também poderia abrigar diferentes protocolos de rastreabilidade, oficiais e privados, incluindo um novo protocolo Europa. Disputas com desenvolvedores do software, dificuldades na gestão do MAPA, discussões dentro da cadeia sobre as regras do novo protocolo atrasaram o projeto.
A CNA assumiu a gestão dos protocolos de rastreabilidade com a intenção de arrecadar recursos e recuperar seu investimento. A PGA continua com dificuldades técnicas na integração das informações dos Estados, e um novo protocolo Europa não pode ser colocado em prática. O Brasil nunca recuperou a posição perdida no mercado europeu.
Enquanto o CTC discutia soluções para o SISBOV com vistas a atender ao mercado europeu, um Grupo de Trabalho nascido no GTPS e na ABIEC reunindo indústria, CNA e técnicos do setor elaborou a proposta de um protocolo básico de rastreabilidade, baseado no modelo australiano. O protocolo garantia rastreabilidade individual voluntária de bovinos em toda a cadeia. Pela proposta, a numeração do SISBOV poderia ser usada em todo o Brasil sem as regras da IN17, criando um mercado de gado rastreado. A partir desse protocolo poderia ser criado outros, com regras adicionais, atendendo a diferentes tipos de segmentos de mercado. Dependente das melhorias na PGA e de novas regulamentações no Sisbov, a proposta permanece em stand by.

Nova Assocon
Em julho de 2015, a Associação Nacional dos Confinadores (ASSOCON) anunciou pretender tornar-se uma nova voz de todos os elos da cadeia produtiva da pecuária de corte intensiva do Brasil. Para levar adiante este novo posicionamento, a associação mudou os estatutos e definiu novas formas de governança. A primeira ação foi iniciar a produção da campanha “Orgulho de Ser Pecuarista”, concebida para reunir histórias reais de lideranças do setor.
O projeto foi tocado por ex executivos da JBS com o apoio da diretoria da Assocon. Uma nova sede foi concebida em São Paulo (A Assocon havia trocado São Paulo por Goiânia) e começaram o trabalho de convencer empresas de insumos e outras a participarem do projeto. Com estratégias algo confusas, o projeto foi perdendo apoio e os dois deixaram a Assocon. A Associação atualmente tem sede dentro da Sociedade Rural Brasileira.

Cadeia Pecuária do RS
Em 2015, foi proposta entre atores da cadeia uma reestruturação da pecuária de corte no Rio Grande do Sul. Em sua concepção, produtores, indústria, o governo do estado, as industrias de insumo e a academia trabalhariam para que o setor pudesse dar um salto em seu status sanitário, produção e acesso a mercados. A partir do diagnóstico do abate na indústria seriam feitas ações de campo no combate à fascíola hepática com o apoio de empresas de saúde animal, um diagnóstico da produção e um planejamento para reduzir a saída de animais vivos para serem terminados em outros estados e melhorar o acesso ao mercado de carnes gourmet. O projeto, com apoio da Secretaria de Estado, do Fundo de Sanidade do RS, FIERGS e FARSUL foi anunciado em Esteio. Por simples falta de clareza na proposta de governança e financiamento e operacionalização nunca decolou.

Protocolo Abiec
Os TACs da pecuária, a moratória da carne, as exigências do BNDES fizeram com que frigoríficos criassem seus esquemas de monitoramento da cadeia. As mesmas exigências fizeram com que os varejistas passassem a monitorar os frigoríficos em um esquema caro para todas as partes, e com sobreposição de tarefas. O Protocolo da ABIEC apresentado ao MPF, frigoríficos e varejistas incluindo a Abras em 2015 tinha por objetivo unificar os critérios de monitoramento em um sistema de melhoria contínua, criando um diferencial de mercado para os frigoríficos e supermercados que o adotassem, criando uma autoregulação para o setor e uma porta de saída para os Termos de Ajuste de Conduta do MPF.
Com a integração das informações de varejistas e frigoríficos, seria possível mapear não só o risco socioambiental para planejar ações de mitigação, mas mapear também a qualidade da carne na ponta em relação à sua origem. Sem apoio político, o projeto está engavetado. Hoje, os três grandes frigoríficos e três grandes varejistas discutem como unificar seus sistemas de monitoramento.

GTPS
O GTPS iniciou suas discussões em 2008, e foi formalmente criado em 2009. Seu modelo era o de mesas redondas já existentes no mercado de commodities, como a RTRS, a Palm Oil roundtable, Bonsucro e outras. Seu objetivo principal era o de definir princípios e critérios que levassem a uma certificação.
Com um debate acalorado em torno desses critérios, o GT ficou paralisado até que decidiu-se após 2010 e orientar seu trabalho à difusão de boas práticas. O GT passou a apoiar projetos de pecuária sustentável em diversas regiões, e foi bem-sucedido em elaborar posicionamentos e estudos estratégicos para o setor.
Em atual crise de identidade, associados tem dificuldade em enxergar o real valor entregue pelo GTPS e o caminho a seguir daqui para a frente.

Lições aprendidas:

Toda essa tentativa e erro nos deixa com o gosto amargo das oportunidades perdidas. A cadeia chegou a ter a proposta da maior indústria frigorifica do mundo de apoiar uma agencia de formação de preços, controle por balanças externas, fundo de marketing e tipificação de carcaças. Desperdiçou-se isto.
O Rio Grande do Sul tinha no meu ponto de vista a oportunidade de tornar-se um Uruguai dentro do Brasil, com a carne de melhor qualidade, a possibilidade de rastrear seu rebanho todo e incrementar a produção sem nenhum risco socioambiental associado, podendo diminuir enormemente a necessidade brasileira de importação de cortes nobres.
O Brasil poderia ter um sistema de rastreabilidade efetivo, atendendo não só a Europa mas a diferentes mercados, e dar um salto de décadas em seu controle sanitário através da PGA.
Poderíamos ter um protocolo de sustentabilidade único unindo varejistas e frigoríficos atendendo ao mercado.
Há outras “mortes anunciadas” no horizonte, como a discussão sobre hormônios, bem estar animal, controle do desmatamento indireto, concentração da atividade no campo, automação na indústria frigorífica, todas elas carentes de debates e propostas.
Grupos de trabalho são criados (como o mais recente no âmbito do MMA), com os mesmos problemas e riscos que os exemplos anteriores.

Em termos de governança e transparência, o GTPS aparenta ser a mais bem sucedida tentativa de organização que a cadeia já criou, embora restrita à questão da sustentabilidade e hoje em crise sobre sua real missão.

Precisamos aprender com os erros, e não esquecê-los. É preciso estudar os modelos de sucesso, no Uruguai, na Australia, nos Estados Unidos, e mesmo o que deu certo aqui no Brasil (enquanto durou como o SIC, ou que ainda funciona, como o GTPS). Que lições podemos tirar de toda essa história, para que não se repita em novas farsas?

Precisamos de lideranças
Uma crise óbvia, que não é exclusiva da pecuária. Mais do que lideranças, precisamos saber que tipo de lideranças precisamos. Quem hoje no setor acumula conhecimento, poder político, poder econômico, capacidade de mobilização e que é capaz de enxergar os desafios que o setor tem pela frente?
Via de regra os elos da nossa cadeia produtiva tendem a enxergar-se mais como antagonistas do que como aliados. Encontrar em cada elo lideranças que possam transpor esse paradigma permanece no meu ponto de vista como o maior desafio que temos.

É preciso gente capaz de colocar ideias no chão
Algumas pessoas são pródigas em jogarem ideias ao ar. Mas operacionalizar ideias nem sempre é fácil. Como diz o ratinho da fábula, quem vai por o guizo no pescoço do gato? É preciso equipe técnica competente, capaz de organizar ideias, planejar, definir metas e executar. Demanda capacidade intelectual, diversas vezes deixada de lado em prol da histeria. Equipes competentes custam caro, em embora existam pessoas de excelente capacidade em diversas organizações do setor, dificilmente conseguem trabalhar em conjunto e cooperar em pautas comuns, ofuscadas muitas vezes por disputas políticas.

Egos não combinam com estratégia
Boas estratégias são muitas vezes sequestradas por egos de lideranças incapazes de aceitar boas ideias de outras pessoas. Não é uma exclusividade da pecuária. A disputa SIC Pró Carne repetiu-se em maior magnitude com as campanhas Sou Agro lideradas pelo COSAG/FIESP e Time Agro, comandado pela CNA de Kátia Abreu. Milhões de reais desperdiçados.

Governança é essencial
Estruturas representativas constituem-se em uma fonte de poder, que pode ser tentadora para algumas lideranças. Antenor Nogueira chegou em a ser ao mesmo tempo Presidente do Fórum de Pecuária de Corte da CNA, da Câmara Setorial de Carne Bovina, do CTC Sisbov e ocupar cargos na FAEG, IMS e no Forum Mercosul da Carne. Há situações em que estas estruturas degeneram-se em feudos eternos, e até passam de pai para filho, caso dos Meirelles em São Paulo.
Governança clara, transparente, com alternância de poder são essenciais para garantir que uma entidade não se torne refém de interesses pessoais. Neste quesito o GTPS destaca-se pela forma como é conduzido.

Sem conhecimento não há salvação
Marketing, sanidade, resíduos, rastreabilidade, negociações internacionais são temas extremamente técnicos, que deveriam ser discutidos por pessoas com conhecimento acumulado em suas respectivas áreas. Essas pessoas devem ser valorizadas, em detrimento dos políticos de ocasião. Atrair essas pessoas ao setor custa caro, mas é o melhor custo benefício que se possa ter.

O marketing necessário
Marketing da cadeia é um tema que sempre atrai produtores, preocupados com sua imagem. As inúmeras tentativas de promoção da cadeia não mudaram um milímetro a opinião pública a respeito do setor. O Brasil não precisa de marketing para alavancar consumo, aqui como em mercados emergentes o que influencia o consumo ou não de carne bovina é a renda. É preciso sim desfazer mitos. Mas marketing sem ação é vazio. Discursos de temos a melhor carne do mundo, somos os mais sustentáveis do mundo, desfazem-se com um tapa. Há inúmeros problemas na cadeia que precisam ser enfrentados, mas podemos sim mostrar que há uma evolução contínua.

Selo-do-Imac-1024x1024

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s