Cerrado

Depois que escrevi na Folha de São Paulo com Marcos Jank, me ligou uma certa Flavia Milhorance, que me contou estar escrevendo uma seria de reportagens sobre o Cerrado para o Mongabay.
Descobri depois que a Flavia vem a ser irmã da Carolina Milhorance, que trabalhou no Planejamento Estratégico da PCI, autora do artigo científico publicado abaixo neste blog, dona de uma mente brilhante e uma agradabilíssima pessoa ainda que eu tenha tido o prazer de conviver com ela por muito pouco tempo.
A série sobre o Cerrado de fato foi publicada e pode ser vista no link abaixo:

https://news.mongabay.com/series/cerrado/

Eu sou citado em algumas das reportagens, na maior parte das vezes para dar a perspectiva dos produtores rurais sobre a discussão atualmente em voga sobre o uso do solo no Cerrado. Na verdade não falo pelo setor produtivo, mas conheço seu ponto de vista. E aparentemente quem poderia falar pelo setor não quis falar à Mongabay…
O Cerrado foi um dos temas quentes na reunião do TFA em São Paulo, principalmente depois que organizações ambientalistas publicaram o Manifesto do Cerrado em 11 de setembro do ano passado (https://www.wwf.org.br/informacoes/sala_de_imprensa/?60722/Manifesto-convoca-o-mercado-para-atingir-desmatamento-zero-do-Cerrado ) convocando o setor privado na Europa a agir contra o desmatamento do Bioma.
Apesar de 11 de setembro ser o dia do Cerrado, a notícia foi sentida como um atentado da Al Qaeda no setor produtivo.
É óbvio que o setor teme as sanções, as moratórias, a exclusão e principalmente a perda de oportunidade para milhares de produtores que buscam a última fronteira agrícola brasileira, principalmente no Matopiba.
A tese ambientalista é que mesmo considerando apenas o desmatamento legal, a legislação representada pelo Código Florestal é insuficiente para proteger a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos gerados pelo Cerrado, daí a necessidade de engajar o setor privado em medidas que possam exigir mais do produtor do que a lei exige.
Os produtores consideram que o Código Florestal já lhes põe um peso excessivo nas costas, impondo ao setor todo o custo de um benefício que é de todos. Consideram por isso inadmissível qualquer exigência supra legal ou interferência em direitos individuais sem que exista nenhuma forma de compensação para tanto.
No artigo que eu e Marcos Jank escrevemos na Folha falava sobre pensar estrategicamente em soluções para o uso da terra no Brasil que permitam o avanço da produção e das exportações e ao mesmo tempo a conservação de ativos ambientais.
Nossa tese em comum era que investir no conflito (entenda-se moratória) além de ineficaz geraria, como está gerando, radicalização dos dois lados. Faria muito mais sentido investir em uma agenda comum.
Essa agenda comum inclui ações urgentes e que são de amplo consenso como:
• destinação de terras não destinadas
• implementação do Código Florestal
• eliminar o desmatamento ilegal
• difundir tecnologia e boas práticas (especialmente na pecuária)
• regularização fundiária
• criar mecanismos de compensação e pagamentos por serviços ambientais
• criar incentivos para a produção em áreas já abertas e degradadas
Arnaldo Carneiro, pesquisador do INPA, foi o autor de um estudo que alerta sobre os riscos climáticos do Matopiba em comparação com os 8 milhões de hectares com alta aptidão para soja e hoje ocupados com pastagens no Mato Grosso.
Fugindo da discussão do desmatamento legal zero/desmatamento zero, Arnaldo falou no TFA sobre pensarmos em desmatamento desnecessário zero. De fato, existem áreas abertas, com alta aptidão para agricultura, suficientes para a expansão de grãos no Brasil pelos próximos anos. E nunca tivemos tantas ferramentas para moldar a paisagem como temos hoje. Seria possível usar crédito, infraestrutura e incentivos para que isso fosse feito, o que demanda uma certa inteligência e integração entre os diferentes entes que ditam a política pública no Brasil e que hoje não existe.
A retórica do confronto “agronegócio mau x heróis da resistência” hoje usada para descrever o que ocorre no Cerrado também é ruim. Uma outra reportagem do El País (https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/21/politica/1521648714_928895.html) sobre o assunto é exemplo disso.
Há inúmeras mazelas como a pobreza e a desigualdade, o coronelismo, os conflitos fundiários, a ocupação ilegal e tantas outras que se tenta sub-repticiamente atribuir ao agronegócio, mas que são na verdade frutos da ausência de estado e de instituições fracas. Males brasileiros por excelência e exacerbados nas regiões de fronteira.
Quem conheceu o sul do Piauí, Balsas no Maranhão ou o oeste baiano há 20 anos (e eu conheci) e o que é agora vê como o Agro é transformador.
Muitas dessas regiões enxergam o agronegócio como a única oportunidade que jamais terão em toda sua existência de alcançarem algum grau de desenvolvimento, ainda que desigual.
E se de fato o agronegócio não é o melhor modelo, não é o que garante uma melhor distribuição de renda e geração de oportunidades, fica a minha pergunta feita no TFA: qual é o modelo de desenvolvimento que iremos oferecer ao Maranhão, ao Piauí, ao Tocantins, ao oeste baiano? Quando e como poderemos desvincular a conservação ambiental do Cerrado (e de outros lugares) da pobreza?
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