Big data, big brother, democracia e desenvolvimento humano sustentável

A Veja entrevistou há algumas semanas em suas Amarelas, a jornalista canadense Naomi Klein. Nos cinco livros que já publicou, Naomi faz críticas ácidas ao capitalismo, ao poder das marcas, à sociedade de consumo e seus impactos sobre o meio ambiente. A saída segundo ela passa por uma espécie de ecossocialismo, um novo sistema econômico a ser pensado capaz de reduzir desigualdades e salvar o planeta.

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Luiz Felipe Pondé em artigo na Folha intitulado “Sociedade do futuro será derivação do sistema de multas de trânsito atual“ disserta sobre o futuro da democracia em uma sociedade que acelera suas formas de controle.
Segundo o autor, teremos uma forma aparente de democracia onde pessoas serão livres para serem indefinidos sexualmente e terem cabelos azuis odiando outros nas redes sociais enquanto viverão sob um regime de controle totalitário de comportamento em nome do bem científico e social. A sociedade de controle do futuro se apoiaria:
– no crescente mercado de equipamentos e serviços de controle de comportamentos;
– na crescente pesquisa e instalação de inteligência artificial e algorítmica em computadores, carros, geladeiras e qualquer objeto de uso cotidiano;
– nas gigantescas possibilidades de arrecadação que isso tudo pode gerar;
– na justificativa científica do bem comum;

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A China planeja lançar um Sistema de Crédito Social em 2020. Segundo o governo chinês, o sistema é uma maneira desejável de medir e melhorar a “confiança” em todo o país e construir uma cultura de “sinceridade”. Como afirma a política, “forjará um ambiente de opinião pública em que manter a confiança é gloriosa. Fortalecerá a sinceridade nos assuntos do governo, a sinceridade comercial, a sinceridade social e a construção da credibilidade judicial”.
Basicamente o governo dá uma nota a cada um dos seus 1.3 bilhão de cidadãos com base em seu comportamento. Alguém que paga impostos em dia é mais confiável do que alguém que não.
Antes de sua implantação nacional em 2020, o governo chinês está adotando uma abordagem de observação e aprendizado. Neste casamento entre a supervisão comunista e a capacidade capitalista, o governo concedeu uma licença a oito empresas privadas para criar sistemas e algoritmos para a pontuação de crédito social. Previsivelmente, gigantes de dados atualmente executam dois dos projetos mais conhecidos.

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O Presidente chinês, Xi Jinping, utilizou o discurso de abertura do 19.º Congresso do Partido Comunista para guiar os mais de dois mil delegados – e também o mundo – por aquilo que serão as próximas décadas, durante as quais se inaugura uma “nova era” no desenvolvimento do país. O grande objetivo é fazer da China uma “potência global”.
O líder chinês prometeu que em 2049, quando se assinalar o centenário da fundação da República Popular, o país “irá posicionar-se de forma orgulhosa entre as nações do mundo” e tornar-se “numa potência global”. “Esta será uma era em que a China irá aproximar-se do palco principal e irá fazer maiores contribuições para a humanidade”.

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No ano passado a Monsanto adquiriu a Climate Corp para se tornar segundo ela mesmo o Google do agronegócio. Leio que a John Deere está desenvolvendo tecnologias para prover conexão à internet nas fazendas e regiões distantes de áreas com cobertura das operadoras atuantes no País. Obviamente não é filantropia, querem que seus tratores computadorizados transmitam dados de todo agricultor que usar um deles. Existem plataformas de dados mapeando o comércio de commodities, o uso da terra e a situação fundiária no mundo inteiro. Big Data e Big Brother.

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Não conheço a obra de Naomi Klein. Mas o termo Ecossocialismo me evoca uma distopia onde um comitê de burocratas auto-ungidos determinará meu comportamento. Me imagino preenchendo declarações de emissões de carbono informando ao Comitê quantas gramas de carne vermelha como por semana. Não será preciso preencher, eles já terão coletado meus dados e me mandado o imposto do carbono a pagar.
O que a China está criando é uma ditadura perfeita, onde cidadãos voluntariamente se controlam para atender aos critérios de bom comportamento determinados pelo Partido. Um pesadelo saído de Black Mirror.
Considerando nossa futura dependência da China, as ferramentas de controle disponíveis, seu recém envolvimento na agenda global e climática, temos o que temer.

No que acredito:

De fato, se o mundo em desenvolvimento quiser consumir como americanos (e as big corporations querem exatamente isso), o planeta não aguenta.
Mas não deve ser essa a desculpa para uma ditadura de controle global.
Acredito que existem duas revoluções na solução do desafio que nos é apresentado.
A primeira delas, a do controle do consumismo é a tarefa de uma revolução íntima, e que tem a ver com valores. A sociedade de consumo destruiu o que as pessoas tinham como fontes de valores, substituindo-os por mercadorias (por isso alguém se considera melhor com o último iPhone do que sem ele). Agora é preciso reconstruí-los. Acredito, como Mujica, na apologia não da pobreza, mas da sobriedade. E do bem estar.
A segunda revolução é a de uma verdadeira democracia. E acredito que a verdadeira democracia (não a máscara enganosa descrita por Pondé) busca sobretudo liberdade, mas uma liberdade dosada pelo bem estar comum. E só pode ser construída de baixo para cima, a partir do empoderamento da sociedade local e do diálogo constante em busca da racionalidade no uso de recursos. Ferramentas de transparência são essenciais para a evolução da sociedade, mas devem servir à essa democracia, e não tornarem-se instrumentos de coação.
Só assim poderemos atingir o que Ratzinger chamava de desenvolvimento humano sustentável.
All_seeing_eye

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