Mulheres

O texto abaixo era para ter saído no dia das mulheres, 8 de março…Foi sair hoje, impulsionado pela pavorosa execução de Marielle Franco no Rio. Morrem 60.000 pessoas por ano no Brasil, nossa maior vergonha e o maior sinal do nosso fracasso como nação. Marielle morreu por pensar e por agir contra a violência. É inadmissível, e deveria ser mesmo para os que não concordassem em nada com suas opiniões. Como muitos disseram hoje, longe de calar uma voz, vão inspirar o surgimento de milhares de outras. Que assim seja, pois só assim mudaremos

Em minha vida profissional tive a oportunidade de ver mulheres extraordinariamente competentes em ação.
Conheci algumas impressionantes como Temple Grendin, cujo autismo não a impediu de ter pós doutorado e a ajudou a ser a maior autoridade do planeta em bem estar animal. Conheci Madeleine Albright, brilhante. Conheci Kátia Abreu, e goste-se ou não dela saiu de viúva de produtor a presidente da Confederação da Agricultura e Ministra. Conheci Izabela Teixeira, que mesmo no MMA sempre me pareceu conhecer muito mais de agricultura do que muitos homens que ocuparam o MAPA.
E conheci muitas outras nas entidades de classe, empresárias, pesquisadoras, jornalistas, professoras, agrônomas, veterinárias, zootecnistas, produtoras.
Essas mulheres sempre me pareciam em suas posições bem mais competentes que os homens. Não conseguiria citá-las todas. Mas algumas vêm advogando pela maior presença das mulheres em todos os lugares, como Renata Amaral que criou o Women Inside Trade, Natalie Unterstell do Agora, a querida Teka Vendramini que do Núcleo Feminino do Agronegócio foi dar um toque feminino na Sociedade Rural Brasileira, Carolina Porto que colocou as mulheres na churrasqueira com As Braseiras, Carla Tuccilo e Cris Bertelli no Terra Viva.
Destacam-se em ambientes ainda predominantemente masculinos. E me parecem sempre saírem-se melhor do que homens na mesma posição. Talvez porque ainda hoje, por incrível que pareça, para que uma mulher se destaque ela tenha que de fato se esforçar bem mais que os homens.
Ainda assim, é visível o espaço que as mulheres vêm ganhando no campo. Conheci várias que assumiram fazendas e mesmo quando não conheciam nada do negócio tiveram desempenho e resultados surpreendentes.
Sempre preferi trabalhar com mulheres. Meu amigo Francisco Vila que ajudou a criar o grupo de mulheres do agronegócio e levou as mulheres para dentro da Sociedade Rural Brasileira destaca nelas duas qualidades incomparáveis.
Mulheres são multi-task por natureza. Homens têm grande dificuldade de fazer duas coisas ao mesmo tempo. Mulheres tem inúmeras tarefas na cabeça ao mesmo tempo sem que se descuidem de nenhuma delas. É hilário o vídeo de uma mulher ironizando o famoso BBC daddy cuja transmissão ao vivo foi invadida pelo filho pequeno. Na paródia, uma jornalista assume o lugar do homem e faz a transmissão ao vivo enquanto prepara a janta, troca fraldas e desarma bombas. Tenho uma assim em casa, com todos os méritos.
A segunda notável qualidade das mulheres é que, ao contrário de homens, não tem nenhuma vergonha de aprender. (Mesmo uma Kátia Abreu, e eu já troquei farpas com ela em debates, quando era Ministra da Agricultura não tinha pudor nenhum em convocar técnicos da Embrapa para que passassem o dia dando explicações sobre algum assunto até que ela se sentisse segura sobre aquilo).
No dia 8 passado, o ICV publicou uma homenagem às mulheres que trabalham pela sustentabilidade em Mato Grosso. Conheço várias delas, mas gostaria de destacar uma, e nela homenagear a todas.
Conheci a Veridiana em uma visita a Juruena com representantes de um banco alemão. Ela apresentou o trabalho que estava desenvolvendo em Cotriguaçu com uma Associação de extrativistas.
Veridiana vive em um assentamento em Cotriguaçu. Transformou seu lote em um modelo de produção para os outros. Para garantir uma renda extra, muitos assentados trabalhavam como extrativistas recolhendo castanha do Brasil nas áreas de reserva de propriedades privadas, uma vez que o próprio assentamento não tinha reserva. Veridiana criou uma Associação que os representasse. Fez um modelo de acordo por escrito para que o trabalho nas propriedades privadas não gerasse insegurança nem para os extrativistas e nem para os produtores. Deu treinamento em segurança do trabalho para todos. Faz com que os associados mais antigos treinem os mais novos na coleta de castanha. Tudo isso cuidado da família, com um sorriso no rosto e uma energia contagiantes, sem nenhuma sombra de vitimismo, e senhora do seu destino.
Não adianta contarmos o número de mulheres nas instâncias de governança e decisão quaisquer que sejam estas. É preciso que homens e mulheres nas instâncias de decisão dêem às mulheres as devidas oportunidades para que exprimam seu potencial.
E não é fácil fazer isso acontecer, principalmente no campo, principalmente na fronteira, principalmente onde faltam recursos, infraestrutura, educação.
Por mais Veridianas.
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