Os desafios das cadeias sustentáveis, ou o futuro é aqui.

A mitigação de mudanças climáticas e a reversão da perda de biodiversidade no planeta dependem de uma redução drástica no desmatamento mundial.
Esta relação clima e florestas tem sido constantemente evidenciada e reportada em todas as conferências e eventos desde que o clima entrou para a agenda geopolítica global.
Entre os vetores de desmatamento está a expansão da produção agropecuária, especialmente em países tropicais onde a fronteira ainda avança. A pressão da opinião pública sobre o setor privado gerou uma série de compromissos públicos tanto de agentes financiadores como de indústrias de bens de consumo, tradings, processadores, produtores e varejistas, visando desvincular a produção de commodities do desmatamento. Se cruzamos o mapa do desmatamento no mundo com o mapa das regiões onde as commodities são produzidas, não é difícil concluir porquê essas discussões colocaram no foco principalmente a produção de óleo de palma na Indonésia, e a de soja e carne no Brasil (onde Mato Grosso tem um peso imenso).
Em artigo recente (The role of supply-chain initiatives in reducing deforestation) na Nature Climate Change, um dream team de especialistas no assunto (Eric F. Lambin, Holly K. Gibbs, Robert Heilmayr, Kimberly M. Carlson, Leonardo C. Fleck, Rachael D. Garrett, Yann le Polain de Waroux, Constance L. McDermott, David McLaughlin, Peter Newton, Christoph Nolte, Pablo Pacheco, Lisa L. Rausch, Charlotte Streck, Tannis Thorlakson eNathalie F. Walker), dos quais conheço pessoalmente alguns, analisa a natureza desses compromissos e o papel das iniciativas que o setor privado pôs em prática para desvincular desmatamento de suas cadeias de valor.
As iniciativas variam em escopo e ambição, mas estamos falando de um universo de 760 compromissos públicos envolvendo mais de 447 empresas em todo o mundo.
Cumprir essas promessas é uma tarefa complexa. Commodities são por definição produtos que não precisam de diferenciação para serem comercializados. Soja é soja seja qual for sua origem.
Muitas empresas de bens de consumo têm commodities em seus produtos, mas não são responsáveis diretas pelas compras. Um supermercado europeu por exemplo que quer garantir que os iogurtes que vende não tem soja de áreas desmatadas tem que exigir isso de um laticínio que vai fazer a exigência a uma cooperativa de produtores de leite. Esta por sua vez adquire sua ração de uma fábrica de rações que compra farelo de soja de uma trading que adquire o produto em diferentes regiões do mundo onde a soja é produzida por milhares de produtores, e misturada durante o transporte e armazenagem.
Para garantir a sustentabilidade de seus produtos, empresas podem adotar códigos de conduta, estabelecendo uma política de compras ou selecionando fornecedores segundo alguns critérios. Outras soluções passam por iniciativas setoriais, onde uma cadeia de valor de determinada commodity sugere uma solução que garanta sua sustentabilidade.
As iniciativas setoriais podem assumir a forma de sanções, onde fornecedores com desmatamento são simplesmente excluídos da cadeia de fornecimento, como é a moratória da soja ou os acordos dos frigoríficos na Amazônia. Ou podem assumir a forma de incentivos, como certificações, algumas delas “prontas” com a rainforest aliance ou a FSC ou construídas em mesas redondas com a RTRS da soja sustentável ou a RSPO do óleo de palma.
Ao analisar a efetividade das iniciativas de cadeia sobre o desmatamento global, os autores concluem que não bastam apenas compromissos do setor privado, é preciso implementação de fato, com uma combinação de mudanças na conduta das empresas e iniciativas setoriais por produtos sustentáveis. No entanto, embora essas iniciativas possam ter impacto no comportamento de produtores e no desmatamento associado à cadeia de valor alvo, esse impacto ainda é largamente insuficiente para reduzir o desmatamento como um todo.
Os motivos são vários. As sanções, por natureza excludentes, geram vazamentos. As certificações demoram a ganhar escala. Parte do desmatamento está fora do escopo das cadeias de valor, especialmente se relacionado a atividades ilegais. E não há como as iniciativas do setor privado terem efeito se não forem combinadas com políticas públicas que as complementem em seus objetivos.

“As políticas ambientais públicas e privadas precisam complementar e reforçar uma à outra, em vez de fragmentar os esforços. Em um desenvolvimento notável, muitos atores do setor privado comprometeram-se a eliminar desmatamento de suas cadeias de fornecimento. O eventual sucesso desta ambição requer mecanismos para uma implementação efetiva a campo e políticas do setor público que criem a base para uma governança ambiental eficiente.”

A Estratégia PCI pretende ser uma resposta a esta conclusão. A PCI integra as políticas existentes e se baseia em esforços prévios para reduzir o desmatamento, ampliar o cumprimento do Código Florestal fazendo do agronegócio um ator de extrema relevância na conservação da vegetação nativa em áreas privadas, cumprir compromissos de sustentabilidade em cadeias de suprimento ampliando mercados, criar oportunidades em torno de REDD+ e promover o desenvolvimento econômico e a inclusão social para pequenos agricultores e comunidades indígenas e tradicionais.
Para os stakeholders presentes na paisagem rural mato-grossense e sua governança, a Estratégia PCI pode trazer um amplo leque de oportunidades, incluindo garantir a transição um ambiente de baixo risco para os setores privados tanto de fornecimento como de investimento, contribuindo para a alavancagem de novos negócios na jurisdição e a ampliação de mercados.
Em março de 2017, durante a Assembleia anual do TFA em Brasília, o Mato Grosso passou a ser o primeiro estado subnacional a fazer parte da Aliança. Passou a ser também uma das jurisdições prioritárias no mundo para sua atuação.
Em março deste ano, em São Paulo, PCI e TFA farão juntos o Implementation Dialogue, durante o World Economic Forum América Latina.
Neste Diálogo, a ideia é mostrar como as iniciativas e políticas em Mato Grosso podem ajudar os membros de TFA a cumprir seus compromissos. Inversamente, os membros do TFA poderão entender onde e como podem engajar-se e apoiar as iniciativas e políticas no Mato Grosso.
Implementação de fato. Rumo a um futuro bom para todos. E o futuro está aqui.
soja e floresta

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