Fronteiras e tecnologia

Andei no último fim de semana 650km de Cuiabá a Porto dos Gaúchos, município de 5.000 habitantes à beira do Rio Arinos no noroeste do Estado do Mato Grosso.
Iríamos participar do lançamento de uma Vitrine Tecnológica, evento organizado pela Universidade Federal do Mato Grosso destinado a levar informação sobre novas tecnologias aos produtores rurais.
No balcão da recepção do simpático hotel Braun Palace, na avenida Guilherme Meyer, estava um livro sobre a história da cidade, organizado por Henrique Meyer (neto do Meyer da avenida, colonizador da cidade). A colonizadora Noroeste Matogrossense planejou o desenvolvimento da Gleba Arinos, segundo panfleto da época, uma “futurosa cidade do café e da borracha”.
A ata de fundação de Porto dos Gaúchos é de 1955. Um boletim feito em inglês em 63 divulgava Porto dos Gaúchos dizendo: “New Settlement Brings Civilization to Amazon Jungle”.
Acho que pouca gente hoje se dá conta da coragem necessária aos homens e mulheres que se aventuraram com família, mala e cuia no meio da selva no noroeste mato-grossense na década de 50. (Um adendo, em 1955 registrou-se o maior terremoto da história do Brasil, 6,6 graus na escala Richter, em Porto dos Gaúchos).
Aparentemente o café e a borracha não prosperaram com planejado. Sobraram a madeira e os bois. Mesmo assim Porto dos Gaúchos foi deixada de lado enquanto a vizinha Juara, onde supunha-se que as terras eram melhores, crescia com a pecuária.
No evento em que participei, conversei longamente com o Sr. Etso Ruzolin, pecuarista querido e respeitado na região de Juara. Etso chegou a Juara como caminhoneiro. Começou a negociar bois, terras, enriqueceu à custa de muito trabalho e muito suor. Dizia ele “Na época a madeira pagava o custo da terra, das cercas, e às vezes sobrava até para comprar uns bois“. Pensativo ele falou depois, com ar cansado: “Alguns nos tratam como heróis. Outros como bandidos. Não sei se somos um ou outro. Mas sei que fizemos parte de uma história”
Por ironia, hoje Porto dos Gaúchos é a cidade que mais cresce economicamente no Mato Grosso, bem acima da média do estado que já está acima da média nacional. A razão? O avanço da soja no município, sobre as áreas anteriormente ocupadas por pastagens.
Como sua ocupação foi lenta (em relação a municípios vizinhos como Juara), Porto ainda tem uma grande área de floresta preservada. Não podemos julgar os homens e mulheres que então ocuparam essas e outras fronteiras brasileiras pelos critérios que temos hoje. Foram homens de seu tempo, corajosos e sobretudo trabalhadores.
Mas podemos sim trabalhar para que o uso da terra seja otimizado no futuro, para que a conservação da floresta não impeça o desenvolvimento econômico, e que este não signifique obrigatoriamente devastação.
A tecnologia é um fator fundamental para superar este desafio.
Infelizmente, a produção e difusão de tecnologia no país ainda enfrenta barreiras incompreensíveis. No evento em que participamos, um professor de Viçosa chegou a se emocionar no palco ao lembrar ao público quantas faculdades, laboratórios e centros de pesquisa poderiam ser sustentadas com o custo de um único Maracanã.
A iniciativa da Vitrine Tecnológica na verdade só teve sucesso graças a um grupo de bravos liderados pelo professor Daniel de Abreu do campus da UFMT em Sinop.
O Prof. Daniel criou a Agrisciences. Segundo a página da iniciativa http://www.agrisciences.org/, é Programa Brasileiro de Pesquisa e Ensino em Sustentabilidade Agropecuária (AgriSciences), inspirado nos moldes e na filosofia das Land-Grant Universities norte-americanas, como agenciador de pesquisa aplicada e extensão rural. O objetivo do Programa é – por meio de interação multidisciplinar de especialistas de diversas áreas e de desenvolvimento e adoção de melhores técnicas e tecnologias para eficiência, resiliência e estabilidade dos sistemas de produção agrícola e florestal – integrar conhecimento técnico e científico.
Sem a perseverança do professor e o apoio dos produtores, empresas privadas e universidades parceiras a Agrisciences não seria uma realidade. E aquela região não teria a oportunidade de ver uma Vitrine Tecnológica como a que foi feita.
Luciano Vacari da Acrimat comentou em sua palestra: “Quem diria há dez anos atrás que estaríamos aqui reunidos à beira da baiana (apelido da MT338) asfaltada discutindo integração lavoura-pecuária”.
É um novo começo, para uma nova fronteira.

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