A China e nós

A primeira vez que fui à China foi acompanhando uma missão empresarial durante uma visita de Dilma Roussef ao país. A China causava um misto de fascinação e terror nos empresários brasileiros, que ao mesmo tempo desejavam o imenso mercado e temiam sua própria incapacidade para competir com o adversário formidável. Em todos os ramos, exceto no Agro.
Segundo dados divulgados há algumas semanas pelo ministro Blairo Maggi da Agricultura, no ano passado, as exportações brasileiras do agronegócio somaram US$ 96,01 bilhões, o melhor saldo da balança do setor desde 2013. O Agronegócio, puxado pelos complexos soja e carnes representou mais de 44% do total de exportações brasileiras. Mato Grosso foi o segundo maior exportador, atrás apenas de São Paulo.
E a China o maior importador, seguida de Europa e EUA.
A China de fato tornou-se o mercado mais relevante para o Agro brasileiro, e consequentemente para o Mato Grosso.
Ao mesmo tempo em que o Brasil parece ser o perfeito parceiro comercial para garantir a segurança alimentar chinesa (com seu rebanho de 800 milhões de suínos), a China parece ter apetite para investir na infraestrutura brasileira, com certeza o pior gargalo do Agro brasileiro.
Explorar essa complementaridade parece ser um caminho natural para a diplomacia comercial brasileira.
Há outro elemento novo a ser acrescentado neste grande jogo, o clima.
Na última COP, em Bonn, ganhei no stand chinês um livro com os discursos de Xi Jinping nas cúpulas do G20 e outras cimeiras. A temática de mudanças climáticas está presente em todos eles, e mostra disposição política dentro do Partido para assumir a agenda do clima dentro de suas políticas interna e externa.
E não são só palavras, a China está criando o maior mercado de carbono do mundo, um monumental programa de comércio de licenças de emissões que quando for totalmente implementado a partir de 2020, espera-se que cubra cerca de 5 bilhões de toneladas métricas de CO2, o que representaria parte considerável – cerca de 15% – das emissões globais totais.
Quando se toma a decisão de se alterar a direção de um transatlântico, não há meia volta. Ele é praticamente “unstoppable”. É o que está acontecendo com a China hoje, e que irá afetar este outro lado do mundo. Associações chinesas de importadores de carnes e de soja já fizeram declarações públicas sobre garantir cadeias de fornecimento sustentáveis.
É preciso que aqui saibamos encarar esta imensa oportunidade, de não só continuarmos a aumentar nossas exportações a um mercado que já é imenso e que ainda está em crescimento, mas garantir que essas exportações, atreladas a um código florestal, e à redução de emissões, garantam à China não só segurança alimentar mas também segurança em sua agenda climática.
Vamos exportar não só commodities, mas commodities e redução de emissões.
A China continua sendo, desde minha primeira visita e outras que vieram depois um país fascinante pelos contrastes ainda vivos da China rural e urbana, milenar e futurista, comunista e capitalista, pobre e luxuosa, autoritária e inovadora. Dos hutongs aos imensos shoppings de luxo, tudo impressiona.
Lembro-me de estar lá em uma “Black Friday”, e ter visto a Ali Baba de Jack Ma faturando mais do que o Brasil tinha faturado o ano todo com exportação de carne bovina.
Entender a China, suas estratégias e políticas, seus rumos e necessidades já é e será cada vez mais crucial para desenhar o futuro da paisagem rural brasileira.
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