Pesquisa, passado e futuro

As regiões historicamente produtoras de alimentos no mundo sempre estiveram em regiões de clima temperado. Europa, Ucrânia, Estados Unidos e Canadá, Argentina, Austrália. Os trópicos sempre foram hostis à produção agropecuária. Nossos solos são mais pobres, temos mais pragas, mais doenças, mais ervas daninhas, chove muito ou não chove. O Brasil é o primeiro caso de sucesso de um grande player global no mercado de commodities a conseguir produzir nos trópicos. E não só produzir, mas produzir duas e às vezes até três safras por ano dependendo da cultura.
Na proporção área total do território x área ocupada para produção, o país é imbatível. Essa conquista foi feita à custa de muita inovação, com participação significativa da Embrapa, estatal vinculada ao Ministério da Agricultura criada em 1973. O Brasil rural é um antes e outro depois da Embrapa. Sua mais recente contribuição, a Integração lavoura Pecuária Floresta mal começa a entregar seus auspiciosos frutos para o país.
A ampliação do uso de tecnologia com certeza é o fator que mais contribui hoje para diminuir a pressão por novos desmatamentos no país. Somente no Mato Grosso existem ainda, segundo dados do INPUT, mais de 8 milhões de hectares que hoje são pastagens de baixa produtividade com alta aptidão para agricultura, e a pecuária pode ao mesmo tempo em que reduz a área que ocupa aumentar seus ganhos de produtividade.
Recentemente, ganhou destaque na mídia as críticas que um pesquisador da própria Embrapa, Zander Navarro, fez à instituição. Em seu artigo “Por favor Embrapa: acorde!”, Navarro questiona o atual direcionamento da Empresa, sua falta de estratégia face às imensas transformações do setor agrícola e a coerência em ter mas de mil projetos dispersos por 47 unidades no país.
O presidente da Embrapa, Maurício Lopes o demitiu.
Conheci Zander Navarro primeiro por seus artigos, sempre lúcidos. No processo de planejamento da PCI, sugeri a Pedro Leitão, nosso consultor, que o convidasse a participar. Curiosamente foram colegas de escola e jogaram bola juntos. Pedro me alertou, o Zander é incendiário… Conheci-o pessoalmente então, em Brasilia. O jeito manso so sociólogo esconde de fato ideias radicais, mas sempre extremamente lúcidas. Eu o considero brilhante.
Considero Maurício Lopes também um excelente profissional.
Não vou aqui palpitar na política interna da empresa, mas ainda ssim acredito que Zander fez um favor à Embrapa ao iniciar o debate, ainda que de forma pouco diplomática.
Grandes multinacionais concorrem com a empresa no mercado de tecnologia. Por outro lado, um país como o Brasil precisa de muita pesquisa básica em um setor tão estratégico como este para sua economia. Zander Navarro aponta a crescente concentração que está sendo provocada no campo pela especialização cada vez maior dos produtores. Aponta também a necessidade do viés econômico nas pesquisas, e não apenas agronômico e tecnológico.
Todo centavo gasto nesta empresa retornou multiplicado para a sociedade brasileira. É rara a propriedade rural que hoje não tenha a presença de alguma inovação ou tecnologia desenvolvida na Embrapa.
Mas de fato não se vive do passado. Se a Embrapa tem um plano claro de prioridades definidas para o futuro, que leve em consideração os enormes desafios que o setor tem pela frente, seria bom que o comunicasse e debatesse em alto e bom tom.
plantio direto

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s