Lost in translation

Acredito que muitos dos conflitos hoje existentes são derivados de erros de comunicação. A dicotomia coxinhas-mortadelas exacerbada aqui como alhures representa bem essa hipótese. No fundo todos querem um país melhor, seguro para seus filhos, com oportunidades para todos, serviços que funcionem e etc. Diferem sim nas ferramentas e meios que podem obter tal fim. Bastaria então uma análise racional lógica e histórica dos meios que já foram testados ou não, do que já deu certo ou não. A batalha verbal é a maior barreira para essa análise.
As redes sociais e algoritmos de busca na internet acabam por piorar esta situação. Ao dar like, ou buscar determinados termos, você acaba sendo direcionado a páginas e textos que a inteligência artificial acredita serem sua preferência. Em resumo, cada vez mais você acessará informações que sustentam seus argumentos, e não o contraditório, enclausurando-se cada vez mais numa bolha de pré-conceitos.
Evidentemente os conflitos gerados pela comunicação exacerbam-se quando tratamos de culturas diferentes.
O filme A Chegada, excelente ficção científica onde uma linguista é chamada para tentar fazer contato com alienígenas enigmáticos recém chegados à Terra popularizou a hipótese de Sapir-Whorf. Edward Sapir era um antropólogo especializado nas associações entre língua e cultura. Benjamin Lee Whorf, por sua vez, um discípulo formado em engenharia química que se fascinou pela linguística a tempo de mudar sua história. Juntos, eles apostaram que a estrutura e o vocabulário de uma língua são capazes de moldar os pensamentos e percepções de seus falantes — e que, portanto, cognição e língua são inseparáveis.
Não sei se a hipótese é correta ou não, mas ao longo das minhas experiências internacionais percebi que o modo como um chinês, um russo ou um árabe pensam não é exatamente como o nosso (ocidental). Minha saída era tentar desvendar ainda que minimamente a alma e a história desses povos através de sua literatura ou produção cultural. Não há como entender a alma russa sem Tolstoi ou Dostoievski.
Recentemente estive em uma aldeia indígena no Mato Grosso. Me apresentaram a um trabalho de etnomapeamento de uma imensa Terra demarcada. ali estão os lugares sagrados, as regiões de caça, de pesca, o lugar onde seus ancestrais povoaram a terra.
A mesma palavra terra me foi definida por um ruralista da gema como um “galpão industrial”, um lugar onde colocamos insumos e retiramos produtos. Obviamente estamos falando de coisas completamente diferentes, com finalidades diferentes e portanto incomparáveis, usando a mesma palavra.
André Guimarães, renomado ambientalista conta ter perguntado certa vez ao cacique Raoni se o Brasil não tinha muita terra para pouco índio. este respondeu que o Brasil tinha pouco índio cuidando de muita terra para muitos brasileiros.
De certa forma, é preciso um esforço mútuo de compreensão do que estamos querendo dizer, qual a finalidade que pretendemos e os impactos e consequências de onde queremos chegar.
Isso demanda um esforço extraordinário de comunicação.
Em outro filme remarcável, o Destino de uma Nação, Churchill discursa ao parlamento convencendo-os a apoiarem sua decisão de não negociar com nazistas. Um atônito parlamentar, opositor a Churchill, pergunta ao Visconde de Halifax, outro oposicionista, o que aconteceu, diante da ovação do primeiro ministro. Halifax responde: “ele convocou a língua inglesa para a guerra.”
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