Fronteiras

Ao longo da história, não só no Brasil, mas em todo mundo, fronteiras sempre atraíram legiões de homens em busca de oportunidades.
A diferença é que no Brasil esse processo histórico de ocupação é relativamente recente. Há um equívoco histórico em associar a elite da classe produtora de hoje com a aristocracia rural do passado. Jorge Caldeira, em seu livro história do Brasil com empreendedorismo desfaz esse o mito do Brasil colonial latifundiário e exportador de açúcar, mostrando que a economia que girava no interior da Colonia, como pequenos empreendedores e homens livres que se aventuravam no sertão era muito maior do que a gerada pela aristocracia. A expansão da agricultura brasileira não contribuiu para manter privilégios da aristocracia do passado, muito pelo contrário, constituiu-se em formidável mecanismo de mobilidade social.
Grandes produtores hoje no Mato Grosso são de famílias de imigrantes, pequenos proprietários ou gente sem terra que teve a coragem de ocupar a fronteira em uma época onde não havia infraestrutura nenhuma nessas regiões.
Obviamente pela falta de planejamento e com outras prioridades políticas e econômicas, o avanço da fronteira se deu a um enorme custo ambiental e social. A grande vantagem deste processo ser relativamente recente no Mato Grosso e no Brasil é que há formas de se alterar o curso desta ocupação, e incluir na equação os componentes sociais e ambientais enquanto ainda temos tempo e enormes ativos a serem preservados.
Mas, a História ensina, não se pode julgar os homens de então pelos critérios de hoje, em um revisionismo ressentido. Há sim que se entender o passado e se trabalhar para o futuro.
Há, no entanto, uma lacuna imensa da história perdida destes homens e mulheres que fizeram a fronteira. Não se conhece o bastante, não se fala o bastante, não se documenta o bastante sobre isso.
Meu pai, Paulo, engenheiro agrônomo, sempre foi fascinado por essas regiões e o que elas ofereciam. Minha família passou por boa parte das fronteiras agrícolas do Centro Oeste e Norte do país, incluindo a Bodoquena, Alta Floresta, o sul do Pará e o Piauí, entre as décadas de 70 e 90. Acompanhei criança e adolescente parte do trajeto.
O texto abaixo vem de um livro de memórias feito pela minha mãe, contando de sua visita a Alta Floresta e Paranaíta nos idos dos anos 70:

“Em toda a nossa história com o café no Mato Grosso, tivera importante participação Ludovico da Riva, um agrônomo saído também da Luís de Queiroz cujo pai, Ariosto da Riva, um veterano colonizador, começara sua saga de pioneiro no norte do Paraná, na primeira metade do século XX. Foi Ludovico quem animou Paulo a plantar café na Bodoquena, indicou-nos a Santa Tereza, intermediou a venda da fazenda quando não pudemos mais mantê-la e, por fim, tornou-se um grande amigo do Paulo, mesmo apesar da enorme demora em nos pagar.
Durante o tempo em que se desenrolava a infindável liquidação da Santa Teresa, o velho Ariosto da Riva andava envolvido com um novo projeto de colonização bem ao norte do Mato Grosso, estimulado pelo enorme interesse dos governos militares na ocupação da Amazônia. Muita gente, atraída pelo anúncio de generosos financiamentos e incentivos fiscais, começava a abrir grandes fazendas por lá, incluindo um tal Serafino Ferruzzi, um italiano muito rico, dono de uma das mais importantes frotas marítimas de transporte de grãos do mundo, grande proprietário de fábricas de cimento aqui no Brasil e que comprou, por intermédio do pai do Ludovico, uma extensa área próxima da cidadezinha de Alta Floresta, sede do projeto de colonização da família Da Riva. O italiano cismara de plantar café nestas terras e procurava um agrônomo capaz de encarar o titânico desafio. Ludovico pensou imediatamente em Paulo e falou dele para o pai, que o indicou ao empresário. O salário era compensador e o trabalho exatamente do tipo capaz de galvanizar meu marido. Dessa vez eu o apoiei, ainda que isso significasse levar praticamente sozinha a criação dos meninos, porque o Paulo só teria possibilidade de vir para casa a cada mês, mês e meio.
Meses depois de ter aceitado a empreitada, Paulo quis que eu fosse conhecer a Mogno, a fazenda do Ferruzzi. Fui encontrá-lo em Cuiabá e, no dia seguinte, embarcamos num monomotor para Alta Floresta. Cerca de uma hora de vôo mais tarde, deixávamos para trás a última grande área aberta na fímbria da floresta amazônica, a célebre Fazenda Mutum. Daí por diante, prosseguiríamos ainda por hora e meia sobre a mata cerrada, sem vislumbrar uma única clareira, um fio de água, um esboço de estrada, um sinal de presença humana que fosse. Perguntei ao piloto do pequeno avião:
“-Comandante, o que o senhor faria se o motor começasse a falhar agora?”
“-Escolheria uma castanheira bem forte e pousaria sobre ela”, ele respondeu.
Pensei que fosse humor negro. Não era.
“Mas”, prosseguiu ele, tranquilizando-me, “não se preocupe; se você pudesse enxergar através da copa dessas árvores, ficaria espantada com o tanto de gente que circula aí embaixo.”
“-Índios?”, eu quis saber.
Ele riu:
“Não. Brancos. Alguns até bem louros, de olhos azuis. Missionários, contrabandistas de minérios, de bichos e plantas da Amazônia, madeireiros, garimpeiros, uma verdadeira correição de gente de todo o tipo.”
Aterrissamos numa pista de terra, próximo do escritório da colonizadora, e seguimos de caminhonete para a fazenda. Chegamos ao entardecer. Fiquei impressionada. A sede, uma grande construção de madeira, ficava no centro de uma clareira. À volta, uma verdadeira muralha de vegetação, alta, escura e cerrada como eu nunca tinha visto, obstruía a visão e dava uma sensação claustrofóbica, acentuada pelo calor úmido que sufocava. À noite, passada a hora dos mosquitos, saímos lá fora para experimentar o ar fresco que vinha da mata. Dormimos enrolados numa manta leve.
Ao amanhecer, Paulo foi me mostrar as obras. Mais uma vez, como em Bonito, pude me orgulhar da capacidade incrível do meu marido de comandar sozinho e perfeitamente à vontade um trabalho que empregava, naquele momento, cerca de mil trabalhadores ocupados em derrubar a mata, abrir a pista de pouso, estradas, construir pontes, levantar moradias e barracões para alojar escritório, oficina, serraria, secadores, enfermaria, refeitório. Era um pequeno povoado que ali nascia para atender o projeto ambicioso do Dr. Ferruzzi de plantar café e criar gado em terras da Amazônia. Com o tempo, eu ainda haveria de me convencer daquilo que um fiel escudeiro do Paulo, o Zezinho, costumava afirmar a respeito do patrão:
“-Quer ver o Paulo feliz, é só arrumar para ele uma obra daquelas bem faraônicas!”
Terminada a implantação da Mogno, Paulo foi convidado a trabalhar com os Da Riva que abriam três fazendas em terras da colonizadora e pretendiam plantar cacau, café, guaraná e pimenta do reino, entre outras coisas, como demonstração das possibilidades que aquelas terras ofereciam aos que nelas viessem se estabelecer. Então, fiz minha segunda viagem a Alta Floresta. No avião, um garimpeiro distribuía entre as senhoras, alianças artesanais de ouro puro. Ao descobrir que eu era mulher do Paulo, que ele conhecia, presenteou-me gentilmente com duas.
Diferentemente da Serra da Bodoquena, o lugar onde crescia a cidade de Alta Floresta não tinha sido anteriormente povoado de forma sistemática pelos civilizados. O que havia por ali, como dissera o comandante do nosso avião, era um trânsito relativamente intenso de missionários, garimpeiros e aventureiros de toda a espécie que acabaram por espantar para longe as populações indígenas. Ariosto Da Riva e sua colonizadora seriam pioneiros em começar um trabalho de fixação de uma população permanente na região. E eu tive, por este motivo, o privilégio de viver uma experiência única naquele lugar: vi nascer uma cidade.
Naqueles dias, acompanhando Paulo no seu trabalho, fui com ele a Paranaíta, um segundo pólo de colonização que se seguiria a Alta Floresta. Os colonos desta segunda área já estavam chegando e começavam a armar suas barracas de lona preta nos terrenos adquiridos da colonizadora. Era como um cenário a se erguer num gigantesco estúdio cinematográfico ao ar livre: o lugar da farmácia, do hotel, da prefeitura, da delegacia, da igreja, era indicado por placas caprichosamente pintadas e distribuídas ao longo das ruas cascalhadas, segundo um plano diretor que o “Seu” Ariosto nos mostrou, orgulhoso. Erguidas as barracas, armada a “trempe” do fogão, as famílias logo davam início à construção das suas casas de madeira. Se eu voltasse poucos meses depois, veria uma pequena cidade pronta e funcionando como sua irmã mais velha, Alta Floresta.
Enquanto os grandes trabalhavam, a criançada se divertia, procurando no cascalho das ruas e das construções minúsculas pepitas de ouro. A região era rica em ouro de aluvião e essa era a grande ameaça a ser enfrentada. Uma noite, ouvimos de um sujeito que tinha terras lá perto que, pouco tempo atrás, ao abrir a janela pela manhã, dera com uma pequena multidão de cerca de trezentos garimpeiros apeando de caminhões na porteira da sua fazenda. Correra um boato de que o rio que cortava a propriedade tinha muito ouro. Garimpeiro, segundo ele, era como praga de gafanhotos; não há quem segure. E, se por azar encontram ouro mesmo, adeus trabalho, não tem peão que resista ao sonho da riqueza instantânea. Vai todo mundo para a bateia.
Nas conversas de fim de tarde, no refeitório da colonizadora, sempre aparecia o jovem delegado para contar as histórias extraordinárias que diariamente testemunhava, geradas pela fortuna tão abundante quanto fugaz proporcionada pelo garimpo. Como aquelas das universitárias de Belém, de Cuiabá e até de São Paulo, que nos fins de semana se enfiavam floresta adentro para se prostituir entre os garimpeiros e, na segunda-feira, restituídas à condição de moças de família, voltavam para suas casas carregando malas pejadas de saquinhos de ouro. Ou a do famoso cantor popular, Valdick Soriano, que se apresentou num dos cabarés do garimpo e saiu de lá dia alto, carregado e afônico, porque a cada vez que tentava finalizar o show, um dos garimpeiros sacudia diante dele um frasquinho de pepitas, incentivando-o a continuar.
Tudo o que eu via e ouvia configurava um mundo novo e extraordinário para mim.”
Alta Floresta em 1976
vista-aérea-de-Alta-Floresta-1976

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