Failure is not an option

Faz pouco mais de um ano que cheguei a Cuiabá. Em janeiro do ano passado, estava dormindo sozinho na casa recém alugada em um colchão no chão.

Enquanto escrevo essas palavras, estou só (família ainda em férias), na mesma casa, decidindo criar este diário virtual, para registrar e compartilhar impressões pessoais desta extraordinária iniciativa que é a PCI, dada a privilegiada posição onde sou simultaneamente seu executor e espectador.

Quando me foi feito o convite para vir ao Mato Grosso, eu era o diretor executivo da mais poderosa associação de indústrias de carne do Brasil, e possivelmente do mundo, considerando que somos os maiores players globais nesse mercado. Era até então o auge da minha carreira.

Recém formado em agronomia pela ESALQ, fui para a França em 1999 fazer uma especialização em mercado de carnes na Ecole d’Agriculture d’Angers. Estagiei e fui empregado por um frigorífico francês. A vaca louca me levou para a Holanda, onde via mais oportunidades na crescente importação do que na declinante indústria europeia. Comecei no setor como vendedor de carne brasileira. Na Europa, mas um vendedor de carne. Sabia tudo sobre o produto. Ao voltar para o Brasil, 9 anos depois, fui chamado para integrar a equipe da Abiec, em uma recém criada Coordenação de Sustentabilidade. Era 2009, a crise financeira mundial havia derrubado o mercado e levado o dólar às alturas tornando impagáveis as dívidas que os frigoríficos haviam feito para expandir seus negócios. Dos então 9 associados da Abiec, 5 estavam em recuperação judicial. O Greenpeace então publicou o famoso relatório da Farra do Boi na Amazônia, implicando as indústrias exportadoras e grandes redes varejistas nacionais e internacionais de carne e couro como cúmplices do desmatamento ilegal na Amazônia.

O que aconteceu então fica para outro post, mas de coordenador de sustentabilidade passei a diretor executivo da Abiec me envolvendo com todos os assuntos de interesse da indústria, de negociações internacionais a rastreabilidade, de direito trabalhista a automação de processos. Não deixando de lado a sustentabilidade.

Por causa dela me envolvi com com o GTPS, o Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável, onde se sentavam produtores, indústrias, varejo, bancos e a sociedade civil. Me tornei membro de seu Conselho, de sua Comissão Executiva e finalmente Presidente do Grupo.

De um produto, carne, me envolvi com um elo da cadeia, a indústria. Da indústria me envolvi com o setor produtivo, e finalmente com toda a cadeia, sempre em busca de soluções para a eficiência, a legalidade, o acesso a mercados.

Quando o convite para a PCI apareceu entendi ser mais um passo nessa caminhada, trabalhando não em uma cadeia produtiva apenas, mas com todo um território, incluindo suas cadeias produtivas e as populações que compartilham esse território, com a imensa complexidade que isso representa e num território tão vasto quanto países inteiros. Era o que chamamos de sustentabilidade jurisdicional, a abordagem mais inovadora surgida até então das melhores mentes dedicadas a pensar o desenvolvimento sustentável.

Ao compartilhar com um amigo a decisão de aceitar ao desafio, ele me parabenizou e disse: “você tem que pensar que está indo para a guerra em uma missão. O helicóptero pode cair, você pode explodir, mas pode ganhar. E se não for não saberá”.

Deixei a abiec com exportações recordes, crises ultrapassadas, mercados abertos e mais de 30 Associados.
Um ano atrás, no primeiro dia no escritório, publiquei em meu Instagram a foto de um souvenir que costumo carregar por aí, adquirido no Smithsonian na minha última viagem a Washington. Uma bola de beisebol com o emblema da Apolo XIII e o lema: “Failure is not an option”.

Tínhamos um conjunto de metas, um Comitê reunindo pessoas e organizações com uma história de relações tumultuadas e boa vontade.

Em Marrakesh, um pouco antes, os holandeses que nos apoiam me perguntaram durante um jantar qual seria meu maior desafio. Respondi: Fazer a PCI sobreviver a mudanças políticas no Brasil.

Hoje temos um plano estratégico, uma estrutura sendo montada, financiamento garantido, indicadores sendo monitorados, materiais de comunicação, um portfólio de investimentos. Sólido o bastante para que a Estratégia sobreviva, mas ainda com gigantescas tarefas pela frente.

Toda minha carreira foi baseada em negociações. Negociações comerciais, negociações de classe, negociações políticas, negociações internacionais.

A PCI é uma grande negociação em busca de uma paisagem que beneficie todos que vivem nela (e muita gente fora dela).

Failure in not an option.

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